Escritos recentes

Breve incursão pela História

Dizem os antigos eruditos que nobreza de caráter é dedicar as noites a incursões pela História. Pois, o fiz.

Começando por uma Coca-Cola (um brinde ao século XX e à solução do calote americano), um chá (pelos ingleses — ou pela gripe eminente, na verdade) e um café (pela República Velha brasileira, e por minha mãe). Depois, cerveja (pela Mesopotâmia, Ambev e meu alcoolismo), destilados (pela paz nos canaviais, primeiramente, e depois pelos escoceses, bons sujeitos), finalizando com vinho (pelos gregos, sobretudo Sócrates, aquele craque da Seleção de 82).

Todos os litros permeados de amor e paz de espírito. Estou levemente bêbado e amo minhas férias, que estão por terminar, infelizmente. Mas tenho alegria. Líquida. E felicidade; sólida. =)


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Trágica enciclopédia

Os indivíduos procuram utilizar seu tempo disponível de modo a maximizar seu bem-estar, disse ainda ontem um colega, com ar grave e acadêmico. Deixando o jargão de lado, ocorre que as pessoas agem conforme seus próprios interesses e motivações, às vezes com compulsão e exagero. Um senso comum, acredito.

Na web, essa revolução dos nossos tempos, não parece ser diferente: conheço gente com fixação compulsiva por jogos online, alguns mais cultos (nerds, quero dizer) que buscam artigos científicos e dados estatísticos, aqueles que são fanáticos por sites esportivos, outros ainda (geralmente os mesmos, na verdade) maníacos por redes sociais, MSNs e coisas do gênero. A Internet vicia, diz um já estabelecido chavão.

Nisso, meu vício é específico e atende por nome (além do Dunhill e da Bohemia, casos mais sérios): Wikipédia. Na adolescência, passava horas buscando informações tão úteis para a vida cotidiana como a capital da Lituânia, o PIB per capita belga e a cidade mais populosa da Índia, algo que nunca ninguém me perguntou, nem perguntará, o que não faz mal. Isso, à época, era feito no Almanaque Abril, que, mui valoroso, não fazia com que me pervertesse como fazem os links da enciclopédia online.

Links da Wikipédia, eis minha perdição (sobretudo de tempo). Fiquei em dúvida, dias atrás, sobre qual a base da economia norueguesa, para além do petróleo. Estava preparado o cenário para a curiosidade vã: e qual seria a da Suécia? E qual a população da Suécia? E a Dinamarca, por que é considerada na escandinávia, se ela está no continente, não na península? E por aí vai, adiante e tendendo ao infinito. Ou, melhor dito, até que o navegador quase não mais dê conta do recado.

Para cada verbete consultado, são mais três páginas abertas, para subestimar. Abas, abas, muitas abas. Se ganhasse um real por cada aba aberta no Google Chrome, eu estaria agora em alguma ilha paradisíaca, seja na Papua Nova Guiné, de onde não sei nada, mas acho o nome engraçado, ou nas Seychelles, que é um arquipélago africano, logo acima de Madagascar, uma das poucas nações daquele continente com Índice de Desenvolvimento Humano considerado alto (acabei de consultar). São bem bonitas, as ilhas seichelenses.

Ainda sobre o assunto internético, noto que quase tudo que pesquiso e leio é esquecido minutos, talvez segundos, após a leitura. Ou seja, é um passatempo, tal qual os games, o MSN, as redes sociais. Eis, assim, um bom motivo para, habitualmente, largar o computador e ir aos livros e às fotocópias. Porque, tenho esta impressão, a escrita no papel, ao não distrair o sujeito apressado (eu, por exemplo) com hiperligações, faz com que a concentração, a atenção sincera, aumente e a transformação de informações em conhecimento se dê de maneira mais produtiva. A apreensão do que se lê offline é certamente maior, disso tenho certeza. Mais especificamente, enciclopédias, em especial na Internet, servem para tirar dúvidas pontuais, não para se construir teses. É uma opinião.

E é isso o que acontece, desimportante, comigo quando online. Houve acontecimentos mais importantes mundo afora nesse tempo de blog às moscas. Repassemos, então.

Primeiro, os países ditos árabes entraram em estranha convulsão (rumo à democracia, dizem). A França, cujo presidente dá mostras de estar inclusive disposto a gerar herdeiro para não perder eleição, participa das guerras na Líbia (onde o “líder” Gaddafi não larga o osso), no Afeganistão e segue na Costa do Marfim, além das missões de paz na Burkina Faso, no Mali e na Somália (digo de cabeça, sem consultar a Wiki desta vez), que são países que ficam ali em qualquer lugar da África.

(Confesso sentir certa saudade de jogar War agora. Mas prossigo, já que dominar o mundo sozinho é chato, sendo necessário bons adversários para que emoções haja, ensina Napoleão.)

Mataram o Osama Bin Laden e jogaram-no ao mar, garante-me o presidente Obama, um americano com certidão, e já se excitam as redações para saber quem será seu sucessor na Al-Qaeda — ou Alcaida, para ficar conforme a possível nova lei gaúcha. Como acontece isso, será, de escolher um terrorista sucessor? Estimo que não seja por meio de dinâmicas de grupo, mas vá lá saber? Imaginei procedimento similar ao conclave católico, a fumacinha branca ou preta saindo pela chaminé quando finalizassem a derradeira votação, anunciando “Habemus terroristam!” (transliterado do árabe), algo assim. Seria um belo ritual, especialmente se televisionado, penso eu. Que seja.

O que mais? A inflação ameaça o país, o Big Brother Brasil teve mais uma edição e o Grêmio foi eliminado da Libertadores. Aconteceu também aquela massacre macabro e absurdo em Realengo, tsunami no Japão e a Páscoa. Assuntos trágicos, que não quero entrar em pormenores — os colaboradores da Wikipédia que o façam, pois. Preciso me ocupar dos livros, filmes, pessoas e coisas boas, essas outras divagações que ficam para os próximos textos.


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O futebol

O futebol são vinte e dois sujeitos correndo atrás de uma bola em um campo nem sempre bem cuidado, dizem os muito concisos e os desapaixonados. Para seus amantes, porém, a significação do futebol é próxima do indecifrável, do indescritível. O futebol é a psicologia que Freud não explica.

Pois, o futebol é o samba na vitória, o blues melancólico da derrota, o rock’n roll das disputas no meio-de-campo. É o réquiem no rebaixamento, é redenção e glória ao campeão no apito derradeiro da final. É o juiz sempre injusto nas suas decisões, é o gozo interrompido da marcação do impedimento. É o coadjuvante sendo essencial, é o protagonista decidindo a capa do jornal.

O futebol é o sofrimento da derrota, a dor nas canelas, as meias embebidas em sangue. É a arte do drible desconcertante, o compasso aprumado de uma triangulação bem feita. É o blefe do chute ensaiado e não realizado e o juízo final do chute certeiro. É o riso da falha do goleiro e recuperação sublime deste após a defesa do pênalti mal-marcado. É o zelo do batedor de faltas ao arrumar a bola, é o pensamento ligeiro ao recebê-la, é o pensamento acurado da análise tática.

O futebol é a corrida inebriada em direção aos torcedores após o gol, é a vaia grave ao passe errado. É físico e inteligência necessitando de toda harmonia que seja possível enquanto o adversário acossa e pressiona querendo o Santo Graal. É a malandragem vencendo o pragmatismo ou vice-versa. É a ausência da fórmula perfeita determinando a própria perfeição.

O futebol é uma Revolução Francesa imperfeita. São onze contra onze, pressupondo igualdade. Mas, digamos, a liberdade é restrita pela fraternidade necessária às funções. Zagueiros e goleiros são o anti-clímax do prazer do esporte, os laterais são os bispos que enfraquecem a defesa de peões, enquanto volantes são os serviçais que carregam pianos para o camisa 10, este poeta incompreendido, que articula emoções de imperadores e fenomenais atacantes.

O futebol é a política clubística, com suas articulações melindrosas. É a comunidade de um local deixando de lado suas individualidades em prol de um bem comum. É a união ou a desunião do vestiário levando à vitória ou à derrota. É o grito da torcida, ensandecida, querendo garra, querendo que o jogador se transforme em um gladiador romano ou em um Charles Chaplin de chuteiras. É a ira ao adversário e a compaixão pelo mais fraco. É a melancolia do estádio vazio sendo preenchida por milhares de esperanças.

O futebol é a diversão sem cor ou classe social. O futebol é a batalha para a qual o pai deixa ir seu filho mais pródigo. É a chance de o iletrado ser adjetivado como gênio e do gênio das ciências ser tachado como ignóbil. É o trabalho árduo do dia-a-dia e o picadeiro da apresentação memorável. É o entrevero da disputa, o passo lento ao vestiário, o alvoroço dos repórteres. É o escárnio, a solidão e o esquecimento na derrota.

E o que o futebol não é, então?

De maneira fugaz e definitiva: o futebol não é um mero jogo. Porque o futebol é o cântico das torcidas, a arquitetura pós-moderna do estádio e minimalista do campinho de terra; é a escultura do jogador, o movimento cinematográfico, a pintura do gol, o fingimento e o ludíbrio de lesões, as cores da camiseta definindo o caráter, a palavra do cronista e a coreografia do esquema tático.

O futebol, no fim, é arte que condensa em si todas as demais.


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Economistas sobre: economistas

F. A. Hayek:

“O economista que só sabe Economia não pode ser um bom economista”

J. M. Keynes:

“O bom economista deve ser matemático, historiador, estadista, filósofo… deve entender os símbolos e falar com palavras. Deve contemplar o particular nos termos do genérico, e tocar o abstrato e o concreto na mesma revoada do pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado com objetivos futuros. Nenhuma parte da natureza humana ou das suas instituições deve ficar completamente fora do alcance de sua visão. Ele deve ser decidido e desinteressado com a mesma disposição; tão distante e incorruptível quanto um artista, e ainda assim algumas vezes tão perto da terra quanto um político”


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Como foi seu dia?

Sábados foram feitos para o repouso espiritual, à reflexão e o descanso, dizem algumas tradições. Para cousas edificantes, com e sem ironia, ousaria acrescentar eu, para quem eles são geralmente dedicados ao ócio e à decadência. Contrário ao habitual, porém, o último sábado foi o dia mais engrandecedor da semana, sem qualquer dúvida — e não só pela contundente vitória contra o despertador às 8h em um final de semana (embora seja um fato digno de nota).

Ocorre que, a convite da amiga Cristina Pretto, eu e o Emanuel Godinho, grata amizade que fiz nestes anos em Porto Alegre, fomos ao Núcleo de Estudantes de Psicologia do Rio Grande do Sul assistir à intervenção “Corpos que Vibram”, realizada por um grupo de estudantes de Psicologia (a Cris, inclusive) da Univates, centro universitário de Lajeado.

Chegamos ao NESP como estranhos no ninho (a la Jack Nicholson, quase) e aqueles dois sujeitos esquisitos — porque estudantes de Economia, em geral, são esquisitos — debatendo “economices” enquanto esperavam a peça começar certamente despertou curiosidade entre os psicólogos presentes no local. Tanto que, receptiva e simpaticamente, nos perguntaram “de onde vínhamos”, e pareciam felizes por pessoas de outra formação estarem lá, interessadas em seu mundo. A propósito, cabe frisar, há muito tempo não me sentia tão à vontade em um ambiente desconhecido. Hospitalidade genuína não se encontra em toda parte, afinal.

Mas, derivo.

Por um pequeno erro de interpretação do material de divulgação, pensei que a peça seria uma interpretação psicológica d’A Genealogia da Moral, de Nietzsche, o que seria bem interessante. Mas não era sobre isso. E nem importa: penso que foi precisamente por esse pequeno ato falho que a experiência mostrou-se ainda mais surpreendente, instigante e inspiradora.

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Dos fins sem princípios

“Está tudo acabado! Tudo!”, respondeu ela, ato contínuo à minha gargalhada, sem notar que jamais houvera coisa alguma.


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O filho de Teresa

Esta é uma história sobre Teresa — uma jovem que tem outro nome, na verdade.

Pois, Teresa, na semana passada, matou seu filho.

Arthur, o nome dele. Pouquíssimos tiveram conhecimento do fato, menos ainda deram-se por falta. Não era comum perceber o filho, escondido sob os segredos de uma recém-moça, que mal entrara na faculdade e já precisava mudar repentinamente todos os planos. A ansiedade decorrente disso, aliás, fê-la, com aqueles cabelos desajeitados e caminhar com um pouco de desleixo (ou preguiça), parecer ainda mais estranha a todos. Seus olhos, negros e fundos, pareciam esconder-se da face em pensamentos virados para o próprio interior.

Arthur é filho de um homem de olhos claros, usualmente vestido com boa intenção, não obstante use de combinações estranhas, como calças claras e camisa xadrez. É dono de um pequeno comércio de eletrodomésticos que fica bastante próximo daqui de casa. Quando vou à sacada para fumar um cigarro, a propósito, consigo vê-lo dentro da loja, inclusive. Em resumo, um sujeito simples, daqueles que se vê milhares todos os dias a pegar seus ônibus lotados de outros iguais.

Ele, porém, jamais soube do filho. Soubesse, e provavelmente não reconheceria como tal. Teresa nunca tinha sido muito fiel, era sabido. Fora um daqueles romance tidos como modernos, algo que haviam combinado desde o princípio. Nada de ciúmes, nada de planos; apenas gozo.

Sei que assim persistiu o relacionamento por vários meses, até que o Cláudio nunca mais teve notícias de seu affair. Eu também não havia a visto mais, e isso já há algumas semanas.

Hoje, porém, aconteceu algo estranho. Voltava do meu trabalho, nos habituais passos largos, a cabeça baixa, os fones nos ouvidos. Dificilmente noto qualquer coisa estranha à minha volta, posto que conheço pouquíssima gente aqui nesta cidade. Chovia fraco, mas o suficiente para ter que usar do guarda-chuva e desviá-lo, nervosamente, de outras pessoas tão ou mais apressadas que eu que utilizam-se dos seus como se espadachins fossem. Ainda assim, vi que alguém me acenava. Era a mãe de Teresa.

Não sei ainda como ele me reconheceu. Aliás, não sei como ela me conhece e sabe da amizade que tive com sua filha. Contudo, o fez, e seu olhar grave me angustiava. Os transeuntes deseducados a esbarrar na jovem senhora nos segundos em que me dirigia até ela eram desprezíveis. Um clichê, “odeio a Humanidade”, pensei. Enfim, cumprimentei-a; perguntei sobre Teresa. Estava grávida, quase ninguém sabia, e fizera um tipo de aborto caseiro, um tal de envenamento salino, mal-sucedido.

Preferiu se arriscar e morrer do que conviver com a realidade. Sentiu-se só, decerto, e a vergonha de ser mãe solteira não desapareceu neste princípio de século XXI, no fundo tão moralista quanto diz não ser. Arthur, ela deixou escrito num bilhete ao lado do computador, caso fosse menino, seria o nome da criança. Isso, claro, se a solidão de Teresa não chegasse a ponto tão definitivo.


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Brasil: Passado e Desafios Futuros

O último dia da Semana Acadêmica comemorativa do centenário do DAECA contou com a ilustre presença do presidente do IPEA, Marcio Pochmann, para falar sobre o tema “Perspectivas para os próximos 100 anos”. Humildemente (e sabiamente), o economista se esquivou da pretensão de ser, digamos, “guru”, e tratou de traçar um panorama histórico dos últimos tempos do Brasil e algumas possibilidades e desafios a serem enfrentados nos próximos anos.

Inicialmente, Pochmann deu um breve relato sobre sua vivência na militância estudantil do DAECA, salientando que o engajamento faz parte do desenvolvimento do estudante, ainda que isso só seja notado no futuro. Isso posto, comentou sobre a ausência de revoluções no Brasil, sejam burguesas ou socialistas, frisando que, aqui, “o novo coexiste com o velho”. Segundo ele, embora tal conciliação de interesses leve consigo o aspecto positivo da ausência de conflitos em grande escala, tampouco reformas significativas são feitas, já que pressupõem um determinado nível de organização social — inexistente, pois.

A propósito, a própria formação de uma sociedade civil urbana é um fato relativamente recente na história do país. Pochmann comenta que, à época da criação da CLT (essencialmente direcionada à população urbana), dois terços da população vivia no campo. O “novo”, então, nasce nas cidades. Aí insere-se, inclusive, a formação das universidades — e, por conseguinte, uma maior preocupação com a educação, embora, segundo ele, nossa república ainda não tenha real compromisso, para além do discurso, com o tema. Uma afirmação interessante (ao menos para mim) foi a de que é irracional alguém começar a trabalhar antes dos 24 anos, sem que tenha concluído sua educação formal. Porém, infelizmente, é a realidade de grande parcela da população, segundo ele mesmo colocou.

Pochmann: transição para sociedade pós-industrial é um desafio

Pochmann: transição para sociedade pós-industrial é um desafio

O desafio educacional, então, insere-se no conjunto de desafios a serem enfrentados pelo brasileiros nos próximos anos. Além dele, Pochmann citou alguns outros:
a) necessidade de moeda de curso internacional, criando certa independência das moedas internacionais;
b) o problema da ausência de um sistema de defesa nacional;
c) desenvolvimeto tecnológico, no tocante à pesquisa e desenvolvimento (tanto em empresas quanto em universidades);
d) envelhecimento populacional e diminuição da população a partir de ~2030, com todos os problemas intimamente associados;
e) transição da sociedade de trabalho material (agricultura, pecuária, indústria) para a de trabalho imaterial (terceiro setor): Pochmann defendeu que não havendo mais um local específico de trabalho, exerceremos (ou exercemos, na verdade) o trabalho em praticamente todos os momentos e lugares, de modo a dar “adeus ao descanso”.

Este último aspecto foi comentado também quando um colega perguntou sua opinião a respeito dos desafios a serem enfrentados no campo da previdência social — sobre a qual anteriormente tinha dado a entender que, no fringir dos ovos, o valor do benefício é razoável, se comparado aos salários em geral. Pochmann acrescentou que observava certa alteração na natureza da mesma. Indagou: o que será a inatividade no futuro, já que, hoje, um terço daqueles com idade para tal, segue trabalhando?

Em seguida, a rica e no mínimo instigante exposição de Pochmann foi finalizada; ato contínuo, encerrou-se a semana acadêmica, sob merecidos aplausos. Sem dúvida, foi uma experiência gratificante e edificante para todos que participaram, tirando de uma zona de conforto intelectual e incitando os debates de corredor e bar. Para onde eu e alguns colegas fomos, aliás — afinal, confraternizar também faz parte do desenvolvimento do estudante. ;)

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Espero que este e os demais resumos possam ser úteis e interessantes àqueles colegas que não puderam comparecer ao evento e aos demais visitantes deste blog. É provável que pontos importantes tenham sido omitidos, por pura e simples inabilidade deste que escreve. Então, toda contribuição ou comentar é muito bem-vinda.

Por fim, deixo meus sinceros parabéns aos amigos que organizaram, excelentemente, o evento.


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O Papel do Estado

O terceiro dia da Semana Acadêmica do DAECA reservou um especial debate entre os profesores Ronaldo Herrlein Jr. e Sabino Porto Jr. sobre a questão do Estado na Economia. Os dois pertencem a correntes do pensamento econômico um tanto difusas, o que por si só já era um indicativo de que haveria um bom número de opiniões discordantes. Foi o que aconteceu, de certa forma, servindo para animar a plateia (que parecia emular torcidas de futebol em determinados momentos), embora as opiniões tenham acabado por convergir em diversos pontos.

O professor Ronaldo iniciou sua explanação traçando um panorama histórico sobre a justificativa da existência do Estado, seu papel decisivo nas formas de capitalismo que coexistem ao redor do mundo, além de salientar sua importância ao desenvolvimento brasileiro, sublinhando a contribuição da Getúlio Vargas. Acrescentou que se o Brasil pode hoje sonhar em ser atuante no cenário internacional, é devido às transformações realizadas e inspiradas por Vargas ao longo do século XX. A década presente, então, seria a primeira da história brasileira em que houve crescimento da Economia sem que houvesse concentração de renda entre os mais ricos. Boa parte dos méritos seriam das políticas de distribuição de renda de FHC-Lula.

Lord Keynes

Keynes: dedo do Estado

Sabino tratou de deixar a exposição um pouco mais quente. Para ele, o Estado se justificaria devido às falhas de mercado e a manutenção da democracia (e liberdade, por conseguinte). Porém, o próprio Estado falha — e, além do mais, as falhas do Estado são bem mais profundas. Dois: o Estado não tem como agregar preferências individuais, mesmo que completas e transitórias, e transformar em uma função de preferência coletiva. Então, até mesmo a democracia, que seria a maior justificativa para a existência do Estado, é falha (vide Paradoxo de Condorcet).

Assim, em um cenário em que o mercado falha, o Estado falha e a democracia falha, qual é o caminho a seguir? Segundo o mesmo professor, o debate que ainda existe no Brasil, entre “mais Estado ou menos Estado” é medíocre: o caso é, sim, em que situações e como o Estado deve agir. A atuação do Estado deve ser tal que incentive que indivíduos livres convirjam para um objetivo (estatal e coletivo), não necessariamente com atuação direta — mas, também, sem demonizá-lo no caso de ela ser necessária.

Lord Keynes

Ludwig von Mises e Hayek: dedo da mão invisível (nenhum sentido)

Após perguntas de colegas de curso, o Ronaldo expôs uma visão à esquerda do chamado Estado mínimo: “quanto menos poder for dado ao Estado e for mantido na sociedade, melhor”, mesmo que ele próprio, suspeito, prefira um Estado mais atuante. Sabino acrescentou que muitas pessoas vêem o Estado como se fosse um ente material, o que, definitivamente, não é: “Estado não é patrimônio, mas, sim, regras e contratos. Cabe melhorá-los”. Transcorreu-se uma exposição sobre a meritocracia dentro da esfera estatal (que, pareceu-me, ambos concordaram ser a mais justa).

Finalizado o debate, restou para mim que, independente da ideologia de cada um, foi uma discussão de ótimo nível. Gosto da forma com que o Ronaldo expõe suas ideias, preferindo a sensatez à pura ideologia. E, por fim, a explanação do professor Sabino reflete muito daquilo que penso a respeito do tema. A questão é mais a eficiência do Estado do que propriamente a não-existência ou minimização dele. Volto ao tema numa outra ocasião, certamente.


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A inflação no Brasil (80′s-00′s)

O segundo dia da Semana Acadêmica do DAECA pôs frente-a-frente os professores Flávio Fligenspan e Marcelo Portugal para tratarem sobre a inflação. Segue abaixo um resumo dos principais pontos tratados (lembrando ao eventual leitor que se trata de um resumo do debate e não de uma dissertação sobre o tema).

Em tom cordial, ambos concordaram na maioria das questões abordadas. O debate serviu para relembrar muitas informações importantes da recente história brasileira e que certamente verei com mais profundidade na disciplina de Economia Brasileira, como as causas da hiperinflação aqui e os métodos de combate a ela utilizados.

Fligenspan iniciou contextualizando o Brasil dos anos 1980, expondo a realidade do país à época e o porquê de a chamada “década perdida” ser tão fortemente marcada pelos sucessivos planos e tentativas de combate à inflação, até chegar, finalmente, à estabilização com o Real. Marcelo Portugal fez questão de frisar que Sarney tinha a opção de criar um “real”, já que o Plano Larida de superindexação de ORTNs para posterior desindexação era bastante similar ao que foi a URV do Plano Real.

Bonita nota

Bonita nota.

Contudo, por ser mais imediatista (e simples), além de plano semelhante demonstrar sucesso na Argentina (o Plano Austral), o então presidente acabou optando pelo Choque Heterodoxo, de congelamento de preço por longo tempo. Isso, na opinião de Fligenspan, foi uma decisão totalmente política, já que nenhum economista sério acreditaria na manutenção do plano por mais do que poucos meses, com vistas à eleição do Executivo e do Legislativo que, dois anos depois, formaria a Assembleia Constituinte. De fato, o PDMB teve amplo sucesso nas urnas de 1986.

Tanto o Choque Heterodoxo quanto o Plano Larida tinham como objetivo eliminar a “memória inflacionária”, um dos principais motivos, aliado à altíssima propensão marginal a consumir do brasileiro médio, para que os sucessivos planos econômicos (posteriores, inclusive) fracassassem. De acordo com Portugal, a implantação do Choque Heterodoxo (congelamento de preços e criação do Cruzado), entretanto, acabou impossibilitando que o mercado pudesse fazer o que é sua principal característica: o ajuste dos preços relativos dos bens, inclusive daqueles sazonais. Assim, um enorme desequilíbrio ocorreu, tornando o Plano Cruzado insustentável no longo prazo — e após o descongelamento de preços, a hiperinflação retornou. E, pior, não se fez nenhuma reforma relevante para que, hoje, pudéssemos colher os frutos de um “choque de capitalismo”.

Errr... Foi mal.

Errr… Foi mal.

Após um “período de planos”, como o Cruzado II, Bresser, Collor, entre outros, foi com o Plano Real, de FHC, que a inflação se estabilizou de maneira sólida. Fligenspan dividiu o Real em dois períodos por ele denominados Plano Real I (de 1994 a 1999) e Real II (pós-99), totalmente distintos . O primeiro plano consistiu na criação da URV, moeda escritural, fictícia, que foi utilizada por dois meses e que preservava o poder de compra, para posterior adoção do Real. Portugal frisou que o sucesso do Real, para além da simples substituição da moeda e eliminação da memória inflacionária, deveu-se (entre outros motivos) ao dólar artificialmente dolarizado, fato que contribui para que os produtos estrangeiros competissem com o nacional — evitando, assim, nova onda inflacionária.

Contudo, conforme Portugal, as crises do México (1995), Ásia (97) e Rússia (98), acabaram minando a economia brasileira, de modo que, em 1999, o Brasil foi obrigado a trocar o “modo de ataque” à inflação. Substituiu-se o ataque via câmbio para o ataque via taxa de juros, estratégia já utilizado com sucesso noutros países. Assim, o câmbio “quase-fixo” foi substituído pelo câmbio volátil. Assim, o câmbio passava a ser instrumento de controle da Balança de Pagamentos e a taxa de juros, da inflação (uma inversão ao modelo anterior, portanto).

Para os dois professores, um grande mérito do governo Lula foi a manutenção dessa política. Conforme o Portugal, Lula fez valer, de certo modo, o dito “Governo é como o violino: se toma com a esquerda, mas se toca com a direita”. Teve assessoria altamente conservadora e as metas de inflação tem sido regularmente atingidas (dentro da margem de tolerância), sem maiores sobressaltos.

Amigões

Amigões.

Um colega perguntou se já não era hora de baixar a meta de inflação (nos últimos anos, de 4,5%). Ambos os palestrantes se mostraram reticentes a fazer isso. E, no caso de isso ser feito, arrancaram gargalhadas ao sugerir que se faça como quando não se sabe o que se faz: aos pouquinhos, bem devagar. Consideram que, se fosse para fazer mudanças, deveriam ser feitas noutros debates, como a independência do Banco Central, por exemplo.

Ao final, um estudante questionou os professores a respeito da manutenção da política de controle da inflação no próximo governo. Fligenspan considerou que é muito provável, ao passo que Portugal demonstrou certo receio em afirmar isso — segundo ele, nenhum dos dois presidenciáveis parece totalmente convencido da eficácia desse modelo.

Gostaria de perguntar qual o modelo de combate a inflação que adotariam, então, mas o tempo acabou. Fiquei com a dúvida, que procurarei sanar ao longo do semestre. Mas saí com a certeza de que o debate foi muito proveitoso e que seria magnífico se ocorressem com mais frequência. É sempre especial ver professores discutindo suas ideias divergentes — mesmo que, como no caso deste debate, elas acabem se mostrando menos discordantes do que poderia se supor.


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