Voltei
Muito tempo se passou desde o último texto (aliás, sobre o tempo), mas pouca coisa, de fato, mudou.
Ainda assim, há bastantes experiências que servirão para compor os próximos capítulos.
Muito tempo se passou desde o último texto (aliás, sobre o tempo), mas pouca coisa, de fato, mudou.
Ainda assim, há bastantes experiências que servirão para compor os próximos capítulos.
Daqui pro futuro falta só um piscar
Que é pro tempo não mais nos enganar
Pato Fu — A Verdade Sobre o Tempo
Não costumava sonhar, talvez por pouco dormir. Ultimamente, porém, tenho tido alguns bem curiosos. Terça-feira passada, então, tive um sonho um tanto quanto surreal: nele, um grande relógio de parede conversava comigo, como que me censurando pelo mal uso que faço do tempo, meus atrasos, e exigindo outras coisas que não consigo, consciente, recordar.
Bizarro.
Ainda sonolento do acordar, lembrei, imediatamente, da pintura A Persistência da Memória, de Salvador Dalí. Talvez fosse um daqueles relógios retratados ali, o relógio do meu delírio. Ou, ainda, o relógio sem ponteiros sonhado por Isak Born em Morangos Silvestres, filme maravilhoso de Ingmar Bergman, querendo mostrar tudo aquilo que abdiquei de viver. Penso dizerem muito sobre a existência, em geral e sobre a minha, em particular, essas referências.
Salvador Dalí — A Persistência da Memória.
Juntamente com assuntos relativos à liberdade, acho que o tempo é uma das questões sobre a qual mais “filosofei” na vida, sem nunca ter chegado perto de fechar questão sobre a indagação essencial (”afinal, o que é o tempo?”). Muita gente mais competente no pensar que eu já teorizou sobre esse tema metafísico (ou ontológico), sem haver qualquer definição consensual. Seria o tempo contínuo, cíclico, uma ilusão…? Jamais haverá explicação que não seja contestada por outra, mas o simples pensar já revela alguma preocupação latente.
Sobre o sonho em si, um certo Freud já teorizou sobre seus significados e o Google me fez saber que sonhar com relógios, segundo essa teoria, significa angústia com o rápido passar do tempo. Faz sentido e, a propósito, a releitura de meus últimos textos aqui publicados revela, de fato, uma aflição, por assim dizer, com a efemeridade e anseios juvenis decorrentes.
Sonho de Isak Born em Morangos Silvestres (Bergman).
O meu relógio talvez não fosse amedrontador para que eu não acordasse, mas tampouco era aprazível, possivelmente para que eu não me aquietasse. Afinal, por mais que procure não desperdiçar o tempo que tenho, sinto perdê-lo. Quiçá o tédio comigo próprio — advindo de atitudes cada vez mais previsíveis, quando não de verdadeira inércia — esteja dando velocidade ao tempo, de modo que os dias, meses e anos, pareçam abreviados, vazios em conteúdo.
Mais ainda, mesmo que haja um verdadeiro esforço por não me preocupar demasiadamente com o passar dele, mas aproveitá-lo, parece que essa noção de brevidade castiga meu inconsciente tanto quanto minha consciência. Algo que, se eu fosse psicólogo, poderia melhor explicar. Contudo, ainda que sem explicação, o sufoco permanece.
Prosseguindo com o tema debatido no último texto, sobre tentar ajudar e possivelmente traspassar limites, e de, agora, buscar ignorar fatos e pouco se importar com as atitudes e futuros do próximo, lembrei de um texto interessante de Chuck Palahniuk chamado Guts.
No conto, o autor, famoso após ter seu Fight Club adaptado para o Cinema, choca ao discorrer sobre masturbação entre adolescentes, vísceras, suicídio e comportamento da sociedade. Como no Clube da Luta, Palahniuk parece querer dar um soco no estômago, ou melhor, encher de porrada, na sociedade. Um pequeno excerto, que serve de ilustração:
[...]
Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.
Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.
Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.
Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. [...]
Clique no link para ler o texto completo
Os motivos da “cenoura invisível” podem ser os mais variáveis possíveis. Claro, não é necessário que haja conotação sexual, nem mesmo ilícita, para que um assunto seja tratado como vergonhoso ou indigno de publicação. Cada pessoa possui seus valores, suas verdades e mentiras, sua própria balança. Há assuntos que são banais para mim e que não o são para outros; e vice-versa.
Edward Munch — Cinzas.
Contudo, como que preencher uma lacuna na minha própria vida e querer dar a ela algum significado, tenho apreço por ajudar aqueles por quem nutro simpatia a resolver seus problemas, sejam no emprego, de relacionamento ou psicológicos. Porém, percebo que me excedi em alguns casos e, como lição, acho que fica a de não tentar ajudar a resolver os traumas de quem não quer resolvê-los, quaisquer sejam os motivos. Não cabe a ninguém julgar se informações e temas sobre outra pessoa merecem ser dissecados a não ser ela própria (e, se for afirmativo, isso deve ser feito da maneira que lhe convier).
Afinal, todas as famílias possuem aqueles assuntos que jamais serão tratados, aqueles traumas que se prefere esconder a discutir. Do mesmo modo, as pessoas têm seus segredos, grandes ou pequenos, que não devem ser debatidos, sequer lembrados. Mas que, no consciente ou inconsciente, sempre são inexoravelmente onipresentes. Em outras palavras: a ferida continua existindo e geralmente não está cicatrizada.
Pequenos acontecimentos cotidianos, muitas vezes, fazem com que eu divague e “filosofe” no meio da rua. Há quem considere estranho, esse hábito meu e eu próprio. Verdade é que um carro que buzina insistentemente, o teatro de palhaços na esquina, o mendigo pedindo cigarro, entre outros tantos exemplo, geram dezenas de pensamentos, interpretações e lembranças.
E, dentre todas essas ações ordinárias, uma que invariavelmente me causa devaneios é ver ou escutar alguém assobiando. Ivan Lessa, jornalista do saudoso O Pasquim, hoje auto-exilado — como ele mesmo diz — na Inglaterra, justifica que, talvez, sua permanência em terras bretãs tenha se dado pela ausência do assobio lá.
Segundo ele, no conto O assobio: “Uma das coisas que talvez tenham me levado a ficar na Grã-Bretanha esses anos todos é a ausência do assobio [...] Nós, brasileiros, assobiamos demais”. E, em sua antiga coluna na BBC Brasil, diz “aqui em Londres, quando alguém assobia, principalmente caprichando, recebe imediata ordem de prisão. Acho. E me parece justo.”
Parece-me que, hoje, até não se assobia tanto quanto antigamente. Os iPods e MP4 tornaram o assovio tão antiquado que poucos ousam encher a paciência dos demais com o som descompassado, mal ritmado e chato que sói ser. Ainda assim, toda vez que ouço um, lembro-me da frase acima, que para mim sintetiza muita coisa no que se refere à (falta de) cultura brasileira.
É verdade, reconheço que exagero e reconheço minha chatice. Mais repugnante, é claro, no meu entender, são aqueles que mascam chicletes de boca aberta e fazem bolas com eles. Porém, imaginem, se recordo isso e já me sinto incomodado com algo tão banal, é melhor que eu sequer lembre do que penso quando vejo um pivete drogado tentando assaltar alguém. Não seria agradável, é certo.
e, se bem entendo Lessa. Lessa, com sua habitual ironia, dá a entender que o assobio exprime a falta de cultura geral. é uma qualidade ligada à falta de cultura. Claro, Lessa usa de uma ironia
http://www.terra.com.br/istoe/artes/1999/10/14/004.htm
Imediatamente após ler o último post, Notas de Um Jovem Rabugento, o Zanatta tascou: “Nada a ver, Rafinha! Tu é um dos caras mais pops que tem; cumprimenta e faz questão de cumprimentar todo mundo que tu conheces. Fica meia hora cumprimentando gente em uma festa!”. Respondi, de imediato, que talvez eu fosse “popular”, mas com uma popularidade muito superficial.
Pois, de fato conheço muito gente e trato-as, quase sem exceção, muito bem. Um parantêses: sem querer entrar na velhíssima discussão que se faz entre pessoas que se conhece e pessoas que são, de fato, amigas, digo que considero muito pouca gente como sendo minha amiga. Fecha parênteses. Contudo, se faço questão de trocar meia dúzia de palavras com as pessoas, é tão-somente isso, literalmente, trocando frivolidades. Um “oi, tudo bem? O que tem feito? E a faculdade, continua?”. E, geralmente, termina por aí.
Sinto que as pessoas sentem-se bem com esse interesse, mesmo que não seja profundo, e por isso sigo dando o pouco de atenção que é possível. Deixo as conversas mais longas, as verdadeiros curiosidades que me são caras, as digressões filosóficas, os debates político-econômicos, o esquema tática da Holanda de 74, os sentimentos e as resenhas literárias para aqueles que realmente tem algo a ver comigo. Então, não é que eu seja um introvertido contumaz e insociável, mas, fazendo um auto-elogio, um introvertido simpático, que gosta das pessoas e quereria poder mudá-las.
Esqueço, porém, que sou imperfeito e que quem deveria mudar, na verdade, sou eu. Afinal, se o mundo não te compreendes e tu não compreendes o mundo, alguém está errado — e a resposta, como que auto-ajuda, é totalmente desnecessária.
[outro texto desinteressante]
Leio e ouço, quase que diariamente, que uma vida de sucesso é uma vida em que se faz o que se gosta. Incomodo-me com o tema. Constrange-me, a propósito, quando vejo meus amigos com metas e ambições: tornar-se rico, fazer mestrado no exterior, ser executivo de uma grande empresa, ser famoso, se tornar vereador, prefeito, o que for. Pois, eu não possuo nenhuma grande ambição, especialmente profissional, e, pior, não sei exatamente do que gosto.
Na verdade, um pouco sei. Gosto de Literatura, Música, pesquisar assuntos aleatórios, assistir a filmes, escrever, negociar — mas não o tempo todo. Subvertendo o eterno retorno nietzscheano, diria que nada que faço realmente me dá gosto e repetiria eternamente, com exceção, talvez, das noites de boemia. Porém, ser boêmio não deve ser, por definição, uma meta de vida.
Vincent Van Gogh — Campo de Trigo com Corvos.
“Trabalhe naquilo que gosta”, diz o mantra para mim tão impossível. Minhas predileções não servem para sustentar. Isto é, ler, ouvir música e escrever (mal e cada vez pior) não são profissões. Ao menos, não aos 20 e poucos anos; com 40, vá lá. É claro que, naturalmente, faço tudo isso nos meus momentos de ócio, ainda que de maneira errática. Mas não é uma profissão, não é trabalho, é puro deleite.
Disso decorre meu desprendimento a muita coisa neste momento. Tenho um bom emprego, que estou jogando fora; estudo em uma boa universidade, e não a aproveito; aparecem dezenas de oportunidades, e não sei se as quero. Sinto-me desgovernado e não há objetivo, nem profissional, nem pessoal, no horizonte. A letra de Runaway Train, do Soul Asylum, talvez nunca tenha feito tanto sentido.
How on earth did I get so jaded
Life’s mystery seems so fadedI can go where no one else can go
I know what no one else knows
Here I am just drownin’ in the rain
With a ticket for a runaway trainAnd Everything seems cut and dry
Day and night, earth and sky
Somehow I just don’t believe it
Quero crer que esse sentimento de inutilidade e desapego ao futuro seja passageiro. Ainda busco forças para tentar ganhar, mesmo que eu não saiba ao certo qual jogo estou jogando. É cada vez mais difícil, porém, lutar por uma causa totalmente desconhecida e duvido que um dia haverá glória ou recompensa. Apenas, quem sabe, compaixão; mas, para o vencedor, as batatas.
Sou insone, o que talvez explique que os posts deste blog tenham sido feitos, em sua grande maioria, na madrugada. Neste momento, especialmente, não durmo em decorrência de fatores do dia-a-dia, um turbilhão de pensamentos passa em minha cabeça. Definitivamente, prever cenários, sobretudo em tempos de crise (externa e interna), não é tarefa das mais fáceis. Esta noite é emblemática.
No inverno, vocês sabem, Porto Alegre é uma cidade fria — agora, 4h, por exemplo, faz 3ºC. A madrugada de hoje, porém, está especialmente bonita, o céu repleto de estrelas. Convidativa à reflexão, enfim, algo que necessitava sobremaneira.
Claude Monet — Megpie.
É neste cenário que cervejas congelando, MP4 tocando as ótima bandas El Cuarteto de Nos e a goiana Violins e cigarros — que, como diz o Lefebvre de Saboya, são namoradas que vêm em 20 unidades (quiçá eu seja poligamo) — me fizeram companhia. Há um refrão de uma música do Violins, aliás, com o sugestivo nome de “S.O.S.”., que diz “é bem mais fácil se eu mentir”.
Destacei esse excerto porque, especialmente, o que me fez pensar se deveria continuar encenando pressupõe mentira. Pede que eu atue, que eu não seja quem sou de fato. E, sim, é bem mais se eu fingir, pedir mais um tempo, “ficar em banho-maria”, como diz a expressão popular.
Contudo, tenho minhas aspirações e meu jeito — errático — de ser, querer e contestar. E isto é algo que nem mesmo o frio de encarangar é capaz de aplacar.
PS: em breve, volto com assuntos mais palatáveis. Por ora, tenho usado blog como legítimo “diário virtual”.
Animar-me com algo não deveria ser digno de nota, mas sim decorrência dos altos e baixos naturais do estado de espírito. Entretanto, ando nitidamente desestimulado em praticamente todos os aspectos da minha vida, indo da faculdade ao trabalho, passando pelas festas e futebol, que têm sido raros os momentos alegres. Tenho agido mais por necessidade e concessões sociais do que propriamente por desejo próprio. Não sinto vontade de dormir, tampouco de acordar.
Essa ausência de estímulos se reflete na minha rala barba malfeita (que fiz há pouco, para agradar minha mãe), na minha falta de apetite, e-mails e ligações de amigos que não respondo há meses, um desleixo comigo mesmo, com minhas poucas coisas, com meus sentimentos. Quem lê essas linhas soltas poderia supor que sou dependente químico. Mas não, sou somente um sujeito desanimado.
Claude Monet — O Nascer do Sol.
Pois, o anseio que, no título este texto, eu disse ter retornado tem ligação, penso, com essa falta de entusiasmo para com o cotidiano: senti uma abrupta vontade de histórias, de ficção. Desejo, necessidade, até, de ler bons romances, assistir a um bom filme, reler aquela novela preferida, aquele conto predileto. Afinal, um dos principais, senão o principal, objetivo da Literatura e do Cinema é precisamente preencher uma lacuna de nossas vidas.
Uma vida com significados e causalidade, eis o que nos oferecem essas artes. Diferentemente da vida real, elas têm um mundo inteiro para ser criado, recriado, pensando, fechado. Uma história bem tramada nos mostra um universo em que as coisas têm motivos para acontecer, ao contrário da aleatoriedade de um mundo que, costuma-se dizer, é perverso e injusto. Não é, mas queremos considerar isso uma verdade para que entendamos mesmo aquilo que é ininteligível. Ou, em outras palavras, para que não nos sintamos apreensivos por não entendê-lo. Mas tergiverso.
Fazia uns quatro meses que eu não lia um romance sequer. No último mês, não assistira a filme nenhum. Na última semana, porém, dediquei-me a isto: aos problemas familiares, à guerra, aos traumas, às angústias. Ficcionais. Porque não briguei com meus familiares, não fui à Segunda Guerra, mas morri com Juan Preciado, condoí-me com a guarda nazista personificada por Kate Winslet, sei que Dorian Gray envelheceu temeroso e Tolstoi me lembrou que as famílias infelizes o são cada uma à sua maneira.
Van Gogh — O Vinhedo Vermelho
Sempre tive sérias restrições àqueles leitores e cinéfilos demasiado vorazes, que preferem deixar de viver as próprias vidas para emocionar-se unicamente de maneira artificial nos mundos irreais da Literatura e do Cinema, desejando que a arte substitua a vida. Todavia, hoje pareço os compreender, ao menos em partes.
Afinal, não corro riscos enquanto estou debruçado sobre as páginas dos Irmãos Karamazovi, mas tampouco apaixonarei-me por uma balzaca ou entenderei as Lolitas que andam por aí. Desistindo de lutar pelo que é real, sobra aquilo que é fabuloso. Não é o suficiente para recuperar a dignidade e uma pretensa felicidade, mas aplaca até mesmo o desinteresse. O que, no momento, já me basta.
Solidão, várias xícaras de café, Street Spirit tocando repetidamente. Levantei-me, fui à minha bagunçada sala de estudos da casa dos meus pais. Queria algo diferente. Talvez um livro não lido. Não, não sabia bem o quê.
Entre empoeiradas enciclopédias, livros de Economia e teoria da Literatura, acabei pegando uma velha revista de palavras cruzadas, empilhada junto aos gibis e livros da época do colégio.
Tentando, e às vezes conseguindo, recordar qual o símbolo químico do Berílio, aves predadoras de gafanhotos, palavras em francês e inglês, nomes de políticos brasileiros e qual o pintor precursor da arte abstrata, me diverti por toda a noite.
Kandinsky — Linha Transversa
Agências de publicidade, via de regra, vocês certamente sabem, prometem cuidar totalmente da comunicação de seus clientes, conhecendo seus negócios, seus clientes, seus mercados e, assim, tornando certeira a propaganda e todos os “que tais” provenientes. Acho espetacular, realmente, essa intenção — no caso, evidentemente, de não ser mal-intencionada.
O problema reside, contudo, na aplicação prática, na execução, dessa ideia. Ora, como é possível que se fique o dia pensando em estratégias diferenciadoras para o cliente se, ao cabo, o que se recebe é pela veiculação da peça, por melhor ou pior que ela seja?
Exemplificando: em projetos maiores, costumamos despender (sim, eu trabalho em uma agência, apesar de não ser um publicitário) um maior número de horas para pensarmos na melhor solução — possível — para a campanha do cliente. Comumente, essas horas de pensamento e dedicação são sequer notadas pelo anunciante, de modo que o que se recebe é o mesmo que uma campanha mixuruca. E cabe lembrar, para colocar mais pontos à baila de discussão, que a agência de publicidade também necessita de resultados (financeiros, leia-se), de modo que se torna inviável agir de modo aderente e penetrante na cultura da empresa aos níveis de remuneração pagos. Céus!, não parece isso tudo impraticável?!
O problema final não é outro senão de coerência: ou cumpre-se o afirmado ou não se promete além da capacidade. É tão óbvio que até angustia. Ainda assim, a maioria das agências tradicionais de propaganda segue oferecendo mágicas ao preço de simples truques de cartas, vendendo quadros de Frida Kahlo quando só pode entregar obras do caricaturista da esquina.
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