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Laxante literário

Li, recentemente, um livro (um e-book, na verdade) de um sujeito até bastante conhecido na “blogosfera”, como costumam dizer. O autor em questão escreve em um dos blogs brasileiros de maior sucesso e fiquei realmente inclinado a ler seu romance no momento em que vi um post em que sugeria “técnicas para escrever seu livro”.

Não que eu tenha gostado das técnicas, e antes pelo contrário, mas fiquei realmente curioso por ver como aquelas ideias eram abarcadas em seu texto. Pois, era gratuito e baixei. Porém, antes de ler propriamente o livro, vi a caixa de comentários do blog do (não) referido autor. Dezenas de pessoas derramavam elogios. Alguns, poucos, criticavam e eram sumariamente enxotados.

“Bah, deve ser coisa boa”, pensei, mesmo que alguns confidenciassem terem lido somente até a 6 ou 7ª página. Levantei, fumei um cigarro, peguei um café e voltei para o computador, ansioso. Abri o PDF e a capa saltou aos olhos. Uma capa mais ou menos e um título, que eu já sabia, vá lá, digno de nota 5. “Não faz mal, quantas capas feias já não esconderam um livro bom?”, reanimei-me. Retomei. Li uma página.

Li-a novamente. Não podia crer, simplesmente não cria que aquilo fosse verdade. Continuei, meio embaraçado, como quando se sente vergonha pelos outros; a história é tão piegas, boba, as personagens tão clichês, ideias soltas como que vomitadas no editor de texto, com falhas de trama tão gritantes a ponto de dar inveja a Renato “Didi Mocó” Aragão. E ainda acresente-se: tudo num Português de 8ª série — tenho as mais sérias dúvidas, aliás, de que o “escritor” tenha sequer revisado o texto.

Como um sujeito se dispõe a escrever algo tão ruim e divulgar como se fosse obra de verdadeiro estudo e esforço? Como pode existir tamanha falta de critério para se autoproclamar um talentoso escritor? Dirão que o importante é a mensagem, ou a emoção que transmite aos leitores, mas eu duvido de que os bajuladores tenham lido, de fato, aquele livro. Seria sobre-humano mesmo para Nietzsche.

Esse livro acabou por me lembrar de Pestana, do conto Um Homem Célebre, de Machado de Assis, que busca a glória eterna (isto é, a música erudita) mas só é capaz de efêmero sucesso, a saber, a polca. Por fim, contudo, a experiência foi bastante válida: nunca escreverei até ter certeza de que há uma boa ideia, uma boa trama, por trás da história que contarei, para não passar vergonha.

Também, não leio mais livros de procedência duvidosa.

A Náusea (Jean-Paul Sartre)

“Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar - e de repente aqui está ela: a Náusea.
Então é isso a Náusea: essa evidencia ofuscante? Existo - o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca… e subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.”

É curioso, mas todas as pessoas que já haviam lido A Náusea, de Sartre, ao serem informadas de que eu o estava lendo, aconselhavam-me: “toma cuidado, que esse livro te fará mal”. Entretanto, teimoso que sou, não podia crer que um livro fosse capaz, novamente, de levar-me à tristeza e à revolta. Ledo engano: após mergulhar nas páginas do livro, de fato, constatei que A Náusea é um livro denso, frio, nu. Melancólico. Nebuloso.

Sartre cruelmente nos pega pela mão e convida-nos a viajar no pensamento de Antoine de Roquetin. Se em determinados momentos ele toma a corajosa decisão de soltar um pouco o leitor para que ele caminhe sozinho (o que, em um livro com narrador em primeira pessoa, na minha opinião, pode ser fatal), em outros, de maior número, chegamos mesmo a perder nossa personalidade, tornando-nos, simplesmente, Roquentin.

A esse respeito, são raros os livros que fazem com que o leitor vá de encontro ao viés filosófico do personagem principal. Ainda mais, dificilmente os argumentos são tão bem aceitos pelo leitor, que, instintivamente, balança a cabeça em sinal positivo, concordando mesmo com as mais sombrias constatações. Em um cenário acinzentado, Sartre relata a angústia não sem fazer com que nós, leitores, nos sintamos também amargurados.

Repleto de intertextualidades, seja com Descartes, seja com o jazz ou com Platão, o autor insere o leitor no debate entre existencialismo (Antoine de Roquentin, o niilista, misantropo, pessimista) e o humanismo (personificado no Autodidata, um entuasiasta da Humanidade). Mas não só; o interesse maior, aqui, é nos pormenores do ser humano urbano, a percepção frente à realidade, no vazio da existência em si.

Menos como Romance, mais como Filosofia em prosa, achei a obra estupenda. A minha sugestão, então, para a leitura da mesma é a seguinte: coloca Radiohead para tocar em um volume agradável, acenda um cigarro e submerja nos devaneios de Antoine Roquentin. Depois, um Prozac não é má idéia.

A Idade do Ferro (J. M. Coetzee)

Apesar de, hoje, eu odiar poesias e contos escritos por mim à época do Ensino Médio, minha antiga professora de Português me dizia que eu tinha certo talento para “literatura engajada”, isto é, literatura com panorama de crítica social. Bem, talvez seja por essa predileção que Germinal, de Émile Zola, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, figurem na lista de livros favoritos há bastante tempo, ainda que eu tenha lido bastante desde então. Entretanto, seja porque as críticas se baseiem se antigos chavões ou devido a rodeios sem fim, pouca coisa do que li ultimamente desse gênero literário me agradou e pensei que demoraria a ler algo bom e novo.

Surpreendeu-me, pois, um livro conhecido há alguns poucos meses, este A Idade do Ferro, do excelente sul-africano John Maxwell Coetzee, que mostrou-me um raro brilhantismo ao tratar do apartheid daquele país. Acho que pouco do que já li havia demonstrado tanta maestria no que se refere às vicissitudes entre existência individual e coletiva quanto este tenso livro. Permeado pelos conflitos da Sra. Curren, a branca de classe média que vê o mundo à sua volta convalescer, Coetzee revela a desgraça humana de uma forma brilhante, lacônica, severa.

Nardine Gordimer escreveu certa vez que “a visão de J. M. Coetzee vai direto ao centro nervoso da existência” e eu corroboro a opinião. Não são raros os momentos de angústia que esperam o leitor que se aventurar nas páginas de Age of Iron. Não é pouco, também, o baque pela cruel realidade retratada na obra, que faz notar a difícil arte de viver e de entender a mentalidade do ser humano na brutalidade desesperadora da pobreza e da guerra.

Laureado Prêmio Nobel de Literatura em 2003, Coetzee, que, nas palavras da Fundação Nobel, “sob inumeráveis maneiras, retrata o envolvimento surpreendente do estranho”, foi o quarto sul-africano premiado. Merecidamente. São raras as vozes que, retumbantes, nos exigem com vêemencia para que abramos as janelas de nossos aconchegantes quartos.

PS: mais sobre Coetzee na entrevista para a Folha aqui.

Do Amor e Outros Demônios (Gabriel García-Márquez)

Há momentos em que tudo o que se quer é sentar, ou deitar, e ler um bom livro e esquecer-se de tudo o que se passa no mundo ao redor de si. De certa forma, é uma fuga da realidade com destino a um mundo fantasioso, irreal e, por vezes, até mais extenuante do que a própria rotina.

Esse é um porquê, mas não o único, que tem me feito embarcar no mundo de Gabriel García-Márquez ultimamente. Sua fantasia, de prender o leitor do início ao cabo do livro, é admirável. Não seria diferente com “Do Amor e Outros Demônios” (Del Amor y Otros Demonios).

De modo magnífico, o autor perpassa por temas contraditórios, polêmicos e perturbadores, como o racismo, a miscigenação na América do Sul, a intolerância religiosa e, até, o erotismo. Tudo de uma maneira sensível e isenta, que o absolvem de qualquer culpa nas questões supracitadas.

Não é preciso ter qualquer genialidade para, ao se ler o título da obra, saber que ela tem por cerne um dos mais misteriosos sentimentos do ser humano, o amor. E é de forma lírica que Gabo enfatiza um amor muito próximo daqueles dos contos-de-fadas, mas talvez sem o idealismo deles.

Os demônios? Bem, não são simplesmente as personificações do Satanás, mas sim tantos outros muito mais mundanos, e tão asquerosos quanto. Nisso, Sierva Maria de Todos Los Angeles, seus hábitos e natureza, é figura emblemática de um mundo recheado de falatórios infundados e severos.

Crônica de Uma Morte Anunciada (Gabriel García-Márquez)

“-¡Santiago, hijo—le gritó-, qué te pasa!
Santiago Nasar la reconoció.
-Que me mataron, niña Wene -dijo.
Tropezó en el último escalón, pero se incorporó de inmediato. «Hasta tuvo el cuidado de sacudir con la mano la tierra que le quedó en las tripas», me dijo mi tía Wene. Después entró en su casa por la puerta trasera, que estaba abierta desde las seis, y se derrumbó de bruces en la cocina.”

A citação acima é o final do excelente “Crônica de Uma Morte Anunciada”, do Nobel colombiano Gabriel García-Márquez, um dos escritores mais badalados, senão o mais, da América Latina. Àqueles que ainda não leram a obra, já adianto: a morte descrita é anunciada à primeira linha do romance (e, óbvio, no título). Logo, não é lá uma grande revelação do enredo do livro, até porque ele é maior que o tema em si. Sigamos, então.

Li o romance em Espanhol, o que é sempre melhor, mas mais demorado (porque não o domino perfeitamente) e desafiador. Às voltas com as dúvidas sobre o que diabos significava “muchedumbre”, ia lendo e assimilando verbetes ao vocabulário e métodos de escrita ao conhecimento. Afinal, é espetacular que um romance prenda o leitor do começo ao final, mesmo que se saiba que, ao cabo, o protagonista (Santiago Nasar) vai morrer — exceto ele, todos sabem disso. Mais ainda, para comprovar a dificuldade em se escrever tal obra: sequer se sabe o que Santiago pensa e o narrador é não-onisciente e um tanto misterioso.

A história, que gira em torno da perda de um casamento, da chegada do bispo à localidade, dos costumes formais, da aura de visões e conhecimentos populares, dos encontros e desencontros, contunde muito particularmente ao abordar a honra, algo que parece esquecido hoje, ao menos nos moldes poéticos. Nostálgico, sim, mas não há como não ter um pouco de condescendência a um assassinato motivado não por motivos torpes, mas sim pela recuperação da honra. É, no fim, por motivos bem mais amplos à pena capital que a crônica ganha ares de magnificência.

Gabo, neste livro, me lembro Juan Rulfo em vários momentos, pelos mistérios cuidadosamente arquitetados e pelas idas e vindas da trama. Para mim, é claro que Pedro Páramo, do mexicano, é superior ao “Crônica…” do colombiano (até por não ser essa a magnum opus deste). Contudo, é mister reforçar, ambas são ótimas leituras, de mestres das letras, daqueles que te fazem pensar e mergulhar em universos tão bem coloridos que é como se existissem de verdade.

* “Muchedumbre”, vejam só, significa simplesmente “multidão”, “aglomerado de pessoas”.

Pedro Páramo (Juan Rulfo)

Dias atrás, em uma visita a uma livraria de Lajeado, encontrei um pequeno livro, de que muito já ouvira falar (especialmente do amigo Juliano), chamado Pedro Páramo, escrito por um mexicano de nome Juan Rulfo. Pois que eu imaginava livro raríssimo de se encontrar, fui encontrar logo em Lajeado! E, porra!, por R$3,80? Bom, a sorte, se existe, às vezes parece ajudar.

Mas o que dizer sobre: trata-se de um dos romances mais densos, mais bem escritos, mais fabulosos que já li. É um livrinho (porque pequeno, não pela qualidade, que é enorme), por isso lê-se em pouco tempo (mas não que sejam momentos tranqüilos, e longe disso — Pedro Páramo contém vozes murmurosas, angustiadas, aflitas como o leitor fica a cada quebra de parágrafo).

Li e reli, com parcimônia, pois é livro para ler assim mesmo, com cuidado. Fiquei imaginando, após, quantas vezes Juan Rulfo deve ter revisado o livro, quantas leituras e ajustes foram feitos a fim de deixá-lo tão perfeitamente conciso e com as histórias magnificamente entrelaças. As passagens temporais constantes, as descobertas que se faz a cada página, tudo prende o leitor, todos os acontecimentos e pensamentos são relatados de uma maneira exuberante. Este foi a único romance escrita por Juan Rulfo e, de fato, nem precisava mesmo de mais. Não à toa o escritor colombiano Álvaro Mutis disse a um então iniciante Gabriel García Márquez: “tenha, leia-o para que aprenda”.

Não acho interessante resenhá-lo: talvez a história contada aqui linearmente faria com que perdesse um pouco da graça para um eventual leitor. Interessante é que, caso vá lê-lo, esteja pronto para surpresas a todo instante, prepare-se para submergir em um mundo fantasioso e sombrio, e tenha a sensibilidade de levantar para pegar um ar fresco, antes que ouça vozes advindas do além.

O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald)

Publicado em 1925, à Era do Jazz americana, os anos prósperos, mas doidos, que sucederam a Primeira Guerra Mundial, O Grande Gatsby é uma obra que mantém-se atual, tanto pela acurada interpretação da futilidade da sociedade quanto pela “grande depressão” que transparece em seu livro. Afinal, no fringir dos ovos, nossa época é, também, de uma grande depressão coletiva.

A trama, contada por um pobretão, por assim dizer, chamado Nick Carraway — um jovem de 20 anos que foi para o EUA em busca de trabalho e que define a si mesmo como uma das poucas pessoas honestas que conhecera –, que aos poucos se fascina pelo vizinho Gatsby, um homem bastante rico, cuja história ninguém conhece, se desenrola mostrando toda a superficialidade e frivolidade da sociedade.

Scott Fitzgerald não diz o que é certo e o que é errado — a traição, por exemplo, é descrita de uma forma que me pareceu bem amoral, como se estivesse sendo descrito um almoço em família. Tudo é muito corriqueiro, desde as festas promovidas pelo Sr. Gastby sem que ele sequer conhecesse grande parte dos presentes, até os interesses financeiros, a riqueza, etc.

Até mesmo o amor é mostrado de uma forma, digamos, cruel. Gatsby, que afinal havia enriquecido pelo crime, tem verdadeiros sentimentos de amor — que depois serão “assassinados” pela própria sociedade — por Daisy, que fora uma antiga paixão, mas que mesmo com o passar do tempo segue viva no coração de Gatsby, a ponto de ele comprar uma casa próximo à baía de Long Island apenas para poder observar, da janela, a casa de sua adorada, casada com um tosco, embora rico, jogador de futebol americano, Tom Buchanan.

Não é elegante contar todo o livro, pois é sensato que cada um veja por si só o seu desenrolar. É um livro fácil de ler, curto, sem inovações de estilo, apesar de ter passagens muito poéticas, de leitura prazerosa, conquanto o tema, a superficialidade repugnante, seja nauseante por si só.



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