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O catador

Passou por baixo da catraca, agradeceu ao cobrador, e foi sentar-se lá mais para o fundo, perto de onde eu estava. Parecia realmente cansado, e carregava aquelas sacolas com latinhas e demais renováveis; um emprego ambientalmente engajado, digamos assim.

O que mais me chamou a atenção, contudo, era a reação dele quando o ônibus passava próximo a postos de gasolina e outros pontos que — julgo eu — sejam potenciais locais para que pessoas joguem suas latas de cerveja e de refrigerante. Virava-se para a janela e observava muito atentamente, mais ou menos como a enfermeira Alma observava a atriz Elizabeth Vogler em Persona, como querendo estar noutra posição e viver e entender aquilo, mas não podendo. Por momentos, achei que ele quereria ultrapassar o vidro e se lançar à avenida, transtornado que parecia com as “oportunidades” perdidas. Logo após, voltava a se virar para frente, como todas as pessoas do coletivo, e eu ouvia que ele estava insatisfeito, seja pelo semblante ou pelas palavras de reprovação que escapavam à sua boca.

Observei tudo de soslaio, meio reticente, meio constrangido. Porém, não me constrangia por ele, mas por mim mesmo. Por que não faço o mesmo que aquele catador? Não digo recolher lixo, mas, mais fácil, aproveitar as oportunidades que me aparecem? Contrange-me mais, talvez, porque isso tudo soa tão auto-ajuda… Tão óbvio.

Stendhal e a senhora do ônibus

Uma das coisas que acho gozadas é a mania que as pessoas em geral têm de definir um desconhecido qualquer pelo livro que este está lendo. Se está com O Anticristo, do Nietzsche, é daqueles ateus modistas; se leva um Bukowski às mãos, é um pseudo-intelectual qualquer. Lendo A Bíblia Sagrada? É evangélico. Acredito ser, mais uma vez, o poder do estereótipo e do preconceito, que, talvez, sejam características inatas do ser humano.

Mas divago, quando é certamente melhor exemplificar: bem, toda segunda-feira, viajo de Lajeado para Porto Alegre. A viagem dura cerca de duas horas, o que dá tempo para dormir, ou ler, ou, ainda, mesclar ambos — o que geralmente faço. Anteontem, então, comecei a ler “Do Amor”, de Stendhal, tão logo me sentei.

Seria uma boa idéia, se não fosse a senhora do assento ao lado ter visto a capa do livro e, instintivamente, suposto que eu estava apaixonado. Respondi que não, absolutamente, que estava apenas lendo porque gosto do autor, o assunto é interessante do ponto de vista da Literatura e outros que tais, mas não adiantou. Acho que ela não deve ter ouvido nada do que eu disse, ou eu não sei ser convincente nem quando falo a verdade, já que desandou a falar que “não precisa ter vergonha de estar apaixonado, menino! Pelo jeito, tu é um guri que leva o amor a sério mesmo, hein?”. Mesmo que toda aquela conversa só me aborrecesse, fui cordato e respondia apenas com um sorriso amarelo, que era pra não ser antipático, sobretudo pelo respeito que costumo ter com pessoas bem mais velhas que eu.

Pminutos depois, é óbvio, fui impelido a desistir do pobre Stendhal e, sob a mui oportuna, para não dizer oportunista, desculpa de estar cansado, pedi licença, alegando que eu tinha que trabalhar depois, que estava muito cansado e que só estava lendo para pegar no sono, mesmo. Ela prontamente compreendeu e desejou que dormisse bem. E que sonhasse com “ela”, com a suposta paixão da minha vida, e deu uma piscadinha marota. Só ri e fechei os olhos; e espero não ter roncado.

Identidades

Fazia calor, como sempre faz em Porto Alegre no verão, mesmo nos finais de tarde. Caminhava em frente à prefeitura, que é, ou ao menos deveria ser, como toda prefeitura, símbolo da democracia e da diversidade de opiniões em uma cidade. Apesar de sentir o suor no rosto e a conseqüente vontade de tomar um bom banho, ia para casa não muito apressado, posto que não estava de fato atrasado a coisa alguma, o que é bastante raro.

As pombas, tradicionalmente instaladas na praça, esvoaçavam, não obstante estarem acostumadas ao incessante vai-e-vem de pessoas naquele lugar. Dentre elas, vinha em minha direção um rapaz, talvez uns dois anos mais velho que eu, branco, loiro, os olhos azuis como os meus… Aparentemente um tanto parecidos, nós, enfim. De soslaio, olhei para a camiseta que trajava, vermelha, o símbolo do Movimento dos Sem-Terra estampado no peito; concomitantemente, fitou meu tórax, sem dúvida reconhecendo, na camiseta do meu curso na universidade, o busto branco de Adam Smith estampado sobre a malha preta. Caminhando em sentido contrário, ambos levantaram os olhos, fitando-se.

Não durou mais que uma fração de segundo. Respeitosamente, cumprimentamo-nos com um sinal de cabeça, mesmo que nem nos conheçamos, como talvez o façam militares que lutam por diferentes objetivos, mas que de todo modo estão imbuídos de ideologias. Não trocamos uma só palavra, o que realmente seria desnecessário; apenas toleramos silenciosamente a opinião um do outro. O ônibus esperava na parada, afinal.

Erudição e bolas

“Futebol é a coisa mais importante entre as não-importantes”, roga o ditado popular. Bem, mesmo não tendo certeza sobre o que são as coisas importantes — a partícula de Deus? O crash da bolsa? Ebola, rubéola, fome, sede? Terremoto, explosão, preconceito, Filosofia? –, acredito na frase. Há, porém, alguns aspectos da moral que evidenciam-se num simples rolar da bola na relva.

Ora, Rimbaud pode ter tido os mais inquietantes questionamentos sobre a atitude humana. Nunca soube, porém, como inevitavelmente comemorar um gol, como visitante, naquele gramado inserido no morro, a vila toda a apoiar os mandantes: comemorar efusivamente, correndo o risco de um facão atravessar as débeis grades que separam a torcida do jogador, ou apenas, timidamente, celebrar a conquista com os companheiros, mostrando ao mundo sua fraqueza e a intimidação que o ambiente lhe impõe?

Não é verdade, também, que Dante parecia vislumbrar o Inferno? Sim, mas nunca soube o que é entrar no campo adversário, a torcida apupando junto ao alambrado, fogos e batuques intimidadores. Ou mesmo ver um senhor, de saliente barriga, que ao longe palita os dentes e, com escárnio, exibe insaciável desejo de ver um cotovelo cortar os lábios de um jogador habilidoso.

Como seria ver-se xingado pelos torcedores após errar um gol, quanto sofreria, Schopenhauer? Camus, que era goleiro, sabia. De muitas horas deve ter sido sua insônia por causa daquela bola despretensiosa que, marota, passou-lhe por baixo das pernas.

Sofrimento é vida, dizia Nietzsche? Gostaria de vê-lo falando isso aos massagistas após ser atingido por um carrinho violento, as travas da chuteira adversária penetrando a pele, os garrões inchados, o rubro sangue empapando a meia de cano alto. A caneleira, um paliativo, apenas encobrindo os hematomas: “escreve com sangue e aprenderás que sangue é espírito”. Boa sorte, meu caro.

Nada se compara, porém, à sensação de ao final comemorar o gol do título, calar a todos, bradar aos quatro ventos a pequena, mas importante, glória. “A glória é um modesto e efêmero absinto”, julgava Verlaine, que seria um bom jogador.

Ah, as vicissitudes de um singelo jogo de futebol…

“Brasil, mostra tua cara”, já dizia o “poeta”

- Como andam as aulas?
- Bah, nem me fala. Tenho prova de Matemática hoje à noite…
- Prova de Matemática numa sexta à noite? Tu só podes estar louca!
- É complicado… Tive duas provas nesta semana. E os professores são f… O ensino no Brasil é muito fraco. Aí a gente trabalha todos os dias e tem que ler no final de semana, ainda. Ah, eu não! Quero mais é descansar no final de semana!
- Pois é, tudo que a gente não quer é ler livros no final de semana… Mas, e o trabalho?
- Tá cansativo. Mas quero só me formar para fazer logo um concurso público e viver na mordomia.
[...]

Todo esse diálogo repleto de lugares-comuns e asneiras enquanto eu tentava continuar com a leitura d’A Náusea, de Sartre, no ônibus. Tarefa impossível, dado os dois efusivos passageiros do banco de trás. Senti-me, de certa forma, impotente. Queria, nesse momento, supôr que eles fossem a encarnação do Demo e ter tido o atrevimento do Rei Juan Carlos da Espanha, virar-me e vociferar “¿Por qué no te callas?”, despejando, assim, toda minha ira à estupidez e falta de educação.

Mas não; sou condescendente a tudo isso.

PS: o diálogo foi exatamente como descrito (até anotei, já que, igual, eu não conseguia me concentrar na leitura). Infelizmente.



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