O catador
Passou por baixo da catraca, agradeceu ao cobrador, e foi sentar-se lá mais para o fundo, perto de onde eu estava. Parecia realmente cansado, e carregava aquelas sacolas com latinhas e demais renováveis; um emprego ambientalmente engajado, digamos assim.
O que mais me chamou a atenção, contudo, era a reação dele quando o ônibus passava próximo a postos de gasolina e outros pontos que — julgo eu — sejam potenciais locais para que pessoas joguem suas latas de cerveja e de refrigerante. Virava-se para a janela e observava muito atentamente, mais ou menos como a enfermeira Alma observava a atriz Elizabeth Vogler em Persona, como querendo estar noutra posição e viver e entender aquilo, mas não podendo. Por momentos, achei que ele quereria ultrapassar o vidro e se lançar à avenida, transtornado que parecia com as “oportunidades” perdidas. Logo após, voltava a se virar para frente, como todas as pessoas do coletivo, e eu ouvia que ele estava insatisfeito, seja pelo semblante ou pelas palavras de reprovação que escapavam à sua boca.
Observei tudo de soslaio, meio reticente, meio constrangido. Porém, não me constrangia por ele, mas por mim mesmo. Por que não faço o mesmo que aquele catador? Não digo recolher lixo, mas, mais fácil, aproveitar as oportunidades que me aparecem? Contrange-me mais, talvez, porque isso tudo soa tão auto-ajuda… Tão óbvio.