Pipoca e propaganda
Abaixo, o curta-metragem de animação Logorama, vencedor do Oscar da categoria deste ano. Achei a idéia boa, mas, sobretudo, extremamente bem trabalhada.
Bom divertimento.
Abaixo, o curta-metragem de animação Logorama, vencedor do Oscar da categoria deste ano. Achei a idéia boa, mas, sobretudo, extremamente bem trabalhada.
Bom divertimento.
Animar-me com algo não deveria ser digno de nota, mas sim decorrência dos altos e baixos naturais do estado de espírito. Entretanto, ando nitidamente desestimulado em praticamente todos os aspectos da minha vida, indo da faculdade ao trabalho, passando pelas festas e futebol, que têm sido raros os momentos alegres. Tenho agido mais por necessidade e concessões sociais do que propriamente por desejo próprio. Não sinto vontade de dormir, tampouco de acordar.
Essa ausência de estímulos se reflete na minha rala barba malfeita (que fiz há pouco, para agradar minha mãe), na minha falta de apetite, e-mails e ligações de amigos que não respondo há meses, um desleixo comigo mesmo, com minhas poucas coisas, com meus sentimentos. Quem lê essas linhas soltas poderia supor que sou dependente químico. Mas não, sou somente um sujeito desanimado.
Claude Monet — O Nascer do Sol.
Pois, o anseio que, no título este texto, eu disse ter retornado tem ligação, penso, com essa falta de entusiasmo para com o cotidiano: senti uma abrupta vontade de histórias, de ficção. Desejo, necessidade, até, de ler bons romances, assistir a um bom filme, reler aquela novela preferida, aquele conto predileto. Afinal, um dos principais, senão o principal, objetivo da Literatura e do Cinema é precisamente preencher uma lacuna de nossas vidas.
Uma vida com significados e causalidade, eis o que nos oferecem essas artes. Diferentemente da vida real, elas têm um mundo inteiro para ser criado, recriado, pensando, fechado. Uma história bem tramada nos mostra um universo em que as coisas têm motivos para acontecer, ao contrário da aleatoriedade de um mundo que, costuma-se dizer, é perverso e injusto. Não é, mas queremos considerar isso uma verdade para que entendamos mesmo aquilo que é ininteligível. Ou, em outras palavras, para que não nos sintamos apreensivos por não entendê-lo. Mas tergiverso.
Fazia uns quatro meses que eu não lia um romance sequer. No último mês, não assistira a filme nenhum. Na última semana, porém, dediquei-me a isto: aos problemas familiares, à guerra, aos traumas, às angústias. Ficcionais. Porque não briguei com meus familiares, não fui à Segunda Guerra, mas morri com Juan Preciado, condoí-me com a guarda nazista personificada por Kate Winslet, sei que Dorian Gray envelheceu temeroso e Tolstoi me lembrou que as famílias infelizes o são cada uma à sua maneira.
Van Gogh — O Vinhedo Vermelho
Sempre tive sérias restrições àqueles leitores e cinéfilos demasiado vorazes, que preferem deixar de viver as próprias vidas para emocionar-se unicamente de maneira artificial nos mundos irreais da Literatura e do Cinema, desejando que a arte substitua a vida. Todavia, hoje pareço os compreender, ao menos em partes.
Afinal, não corro riscos enquanto estou debruçado sobre as páginas dos Irmãos Karamazovi, mas tampouco apaixonarei-me por uma balzaca ou entenderei as Lolitas que andam por aí. Desistindo de lutar pelo que é real, sobra aquilo que é fabuloso. Não é o suficiente para recuperar a dignidade e uma pretensa felicidade, mas aplaca até mesmo o desinteresse. O que, no momento, já me basta.
Meus amigos cinéfilos, como o Tiago Bald e o Henrique Oliveira, certamente gostarão do curta-metragem abaixo (se já não o conhecem). Trata-se de Tarantino’s Mind, película em que Selton Mello e Seu Jorge divagam sobre as conexões supostamente existentes nos filmes de Quentin Tarantino.
Eu, do alto do meu desconhecimento sobre a sétima arte, achei muito bem bolado. Fica a dica.
Um filme reflexivo. Assim poderia ser definido Koyaanisqatsi (1983), título praticamente impronunciável provindo do hopi “vida desequilibrada”. Mas o documentário poderia, adicionalmente, ser determinado como uma obra-prima visual, exploradora da nossa interpretação com relação ao tempo, à tecnologia e à modernidade em si.
Pois, essa é melhor síntese para uma película que, em suas duas horas, não apresenta um diálogo sequer. As descomunais belas imagens, que seguem à risca a velocidade da trilha sonora (ora lentas, ora frenéticas), funcionam muito bem para a imersão do espectador no caráter meditativo do filme. Paradoxalmente, as mesmas pessoas que compõe a sociedade impaciente, cujos carros aceleram nas rodovias e que destroem o que for preciso para construir algo maior e mais moderno, são as que são instigadas à reflexão sobre a própria relação com o tempo.
As duas horas do filme funcionam como um botão de “pause” para o ritmo da própria vida, levando cada um a questionamentos sobre seus valores. Alternando imagens naturais com imagens da megalópole, somos inclinados a pensar sobre nossa relação, geralmente desarmoniosa, com a natureza. Exibindo as mais variadas tecnologias e o frenesi que dela advém, pensamos se realmente aproveitamos nossa existência. Pensamos, ademais, se é essa a sociedade em que queremos passar o resto de nossos dias.
Aparentemente inofensivo, Koyaanisqatsi faz o que, atualmente, é o mais difícil em qualquer atividade: induzir ao pensamento pessoal sobre o mundo que cerca. Nisto reside o maior mérito do filme: indubitalvemente, as perguntas que cada um faz a si mesmo durante o filme são bastante próprias e oportunas.
Seria um excelente cineasta a louvável evolução de um renomado escritor russo? É o que sugere esta polêmica matéria, Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski.
Leia, pense, concorde, discorde; mais tarde, após releitura de Hija de Bergman y Kurosawa …, postarei considerações sobre cinema-e-literatura.
Em tempos de preconceito mordaz contra os fumantes (como eu), nada mais natural do que pensar que “Obrigado por Fumar” é um filme puramente anti-tabagista, com cinismo até mesmo na epígrafe — fosse Michael Moore o diretor, então, nem se fala… Por sorte, Thank You For Smoking é obra do excelente diretor Jason Reitman (o mesmo que posteriormente faria Juno) e a película não se dispõe a tomar partido ou mostrar o que é bom e mal, mas, sim, desdenhar de todo mundo.
O cinismo do título, é claro, evidencia-se no decorrer do filme. Porém, deixando de lado o maniqueísmo, Reitman desenvolve uma espirituosa trama em que Nick Naylor, o lobista relações públicas da indústria fumageira, defende os interesses destes ao mesmo tempo em que esmera-se por ser um bom pai e passar os valores morais ao filho, Joey¹. Odiado pelas pessoas por defender um produto que, sabidamente, traz prejuízos à saúde, o carismático Nick defende-se e ataca como pode, utilizando-se de uma capacidade de argumentação fantástica a la “A Arte de ter Razão”, de Schopenhauer.
“Essa é a beleza da argumentação. Se argumentar bem, nunca estará errado”
Além de contar com ótimo roteiro e interpretações tão boas quanto, Obrigado por Fumar surpreende pelo humor inteligente e, principalmente, pela ausência de panfletagem, algo impensável ao analisar-se somente o título. O mérito maior do filme, aliás, é reforçar a liberdade individual; ou, ao menos, suscitar a discussão sobre a possibilidade da liberdade em uma sociedade repleta de marketing e lobistas como Nick Naylor.
¹ Primeira interpretação de uma criança que não achei inverossímel e babaca
Ingmar Bergman é daqueles diretores cults de quem todo mundo ouve falar, mas a que dificilmente algum dia assiste, seja por mero preconceito a obras não-hollywoodianas, seja pela dificuldade em achar as películas. Apesar de já ter assistido a bons filmes, nunca fui um cinéfilo inveterado como o Tiago, e não me orgulho disso — aliás, devido a essa realidade, pensava que não teria conhecimento da “sétima arte” o suficiente para acompanhar como deveria obras mais, digamos, artísticas.
Porém, graças ao Juliano, que mantém o blog do escritor peruano Zein Zorrilla, vi uma bela película, Persona, que me motivou a buscar as demais do mesmo consagrado escandinavo, todas de beleza inexprimível. Constatei que o prestígio inconteste de que goza o falecido sueco no mundo do Cinema não é mero acaso: suas criações cinematográficas, de incomensuráveis imagens, nos carregam a um mundo poético e perturbador, de frases memoráveis e atos inesquecíveis. Pois, que tal um xadrez com a Morte, como n’O Sétimo Selo? Ou descobrir a dor do silêncio em uma aclamada atriz que simplesmente deixa de falar (Persona)? Ou, ainda, saber das memórias de uma família desunida e repleta de vergonhas pessoais encobertas, raiva e medo, num mundo de cruel hipocrisia (Gritos e Sussuros)?
É claro que há muito mais do que isso — histórias e sub-histórias não faltam nos filmes do renomado diretor e roteirista. Mas, como prefiro não resenhar filmes, já que isso o Tiago faz muito bem no blog dele, restinjo-me a divagar, sobre características e desnorteamentos que eles me geraram. Aliás, além dos questionamentos acima, seria grave omissão escrever um texto sobre Bergman sem mencionar o impacto de Morangos Silvestres, que dilacera e faz pensar sobre o futuro, o passado, as angústias e as faltas, levando, paradoxalmente, a um onirismo sem necessitar a perda da lucidez.
Mais que servir de entretenimento, as películas de Bergman instigam o espectador a conhecer-se e se descobrir. De forma concisa: é inestimável. As elegantes passagens de cena, o apreensivo vermelho sobre preto, a beleza das imagens e das atrizes de Bergman, a sensação de confissão de suas obras, tudo isso e mais um bocado de particularidades, fazem com que seja um prazer, ao passo que uma perturbação, ver e rever as obras-primas de um cinema esquecido. Afinal, não é à toa que estou à procura do resto da filmografia.
Copyright © 2004–2009. Todos os direitos reservados.
RSS Feed. Blog by Wordpress, utilizando Modern Clix, um tema de Rodrigo Galindez.