O comentário do Jones no post Inovação, Cultura e devaneios, em que ele pergunta se “nunca se imaginaram, ou até mesmo pensaram como deve ser bom estar entregue as trevas da ignorância?” me fez lembrar de alguns debates que já tive com amigos e que iam de encontro justamente ao que ele questiona.
O Jones é meu amigo de longa data, e sei muito bem que quando ele se diz culto e politizado é porque, de fato, ele o é — e bastante, diga-se. Mas eu me questiono, diversas vezes, se não superestimo o que sei e, por consequência, superestime a mim mesmo. Talvez o Jones concorde com isso e com o exemplo que segue.
Considero que entendo e me preocupo razoavelmente com política, para citar um assunto, e invejo aqueles que são alheios a tudo. Parecem-me mais felizes, despreocupados, assim. Invejo, repito. Porém, coloco-me no lugar de algum político, um deputado, um senador, ou até um vereador. Será que ele não pensa que EU é que sou feliz, por não saber “da missa a metade”, isto é, apesar ter ideia de como são as coisas, mas não saber com propriedade? Será que eu soubesse como funcionam, na prática, os lobbies, eu não seria ainda mais insone e desacreditado com o mundo?
Novamente, penso que dou excessivo valor àquilo que sei, e que provavelmente nem seja tanto assim. Às vezes, fico pensando naquela frase célebre que se atribui a Sócrates, “só sei que nada sei”, e fico desconfortável. Eu sei, a sério, que nada sei? Meu parecer é negativo: eu deveria ter mais humildade, não só da boca para fora, perante os assuntos que me cercam e ter a consciência de que eu possivelmente esteja errado.
O que serve para este post, inclusive, que não é uma verdade absoluta.
Notícias como esta, da infeliz greve de fome do presidente boliviano Evo Morales, fazem-me crer, cada vez mais, que a América Latina como um todo não pode ser, mesmo, levada a sério.
Porque foge da minha imaginação crer que algum chanceler da Alemanha, ou um presidente dos EUA, ou qualquer figura política de um país dito civilizado usaria de tão estapafúrdia tática para pressionar uma votação, quaisquer fossem os motivos.
Ainda assim, torço para que a greve de fome dê certo — isto é, que dure tempo suficiente.
Fazia calor, como sempre faz em Porto Alegre no verão, mesmo nos finais de tarde. Caminhava em frente à prefeitura, que é, ou ao menos deveria ser, como toda prefeitura, símbolo da democracia e da diversidade de opiniões em uma cidade. Apesar de sentir o suor no rosto e a conseqüente vontade de tomar um bom banho, ia para casa não muito apressado, posto que não estava de fato atrasado a coisa alguma, o que é bastante raro.
As pombas, tradicionalmente instaladas na praça, esvoaçavam, não obstante estarem acostumadas ao incessante vai-e-vem de pessoas naquele lugar. Dentre elas, vinha em minha direção um rapaz, talvez uns dois anos mais velho que eu, branco, loiro, os olhos azuis como os meus… Aparentemente um tanto parecidos, nós, enfim. De soslaio, olhei para a camiseta que trajava, vermelha, o símbolo do Movimento dos Sem-Terra estampado no peito; concomitantemente, fitou meu tórax, sem dúvida reconhecendo, na camiseta do meu curso na universidade, o busto branco de Adam Smith estampado sobre a malha preta. Caminhando em sentido contrário, ambos levantaram os olhos, fitando-se.
Não durou mais que uma fração de segundo. Respeitosamente, cumprimentamo-nos com um sinal de cabeça, mesmo que nem nos conheçamos, como talvez o façam militares que lutam por diferentes objetivos, mas que de todo modo estão imbuídos de ideologias. Não trocamos uma só palavra, o que realmente seria desnecessário; apenas toleramos silenciosamente a opinião um do outro. O ônibus esperava na parada, afinal.
Segundo este Infográfico, moro no “Condomínio de Luxo Capitalismo Libertário”, no meio-termo entre a “Estrada Niilista” do bairro socialista-reformista e o “Rancho Rothbard“.
Interessante. Agora, deixa eu voltar para a vida real e tentar ganhar dinheiro.
UPDATE: fiz duas vezes o teste — na segunda, alterei dois “Discordo muito” por “Discordo pouco” e fui parar em frente ao restaurante Milton Friedman, próximo ao Edifício Hayek e Von Mises. Um lugar ainda mais agradável, na minha opinião.
Sempre que esperamos dum ideal algum progresso, entramos na ilusão: a vitória do ideal tem sofrido, até hoje, um movimento retrógrado. Friedrich Nietzsche
Não é de hoje que percebo que ideologias, assim como religião, só são passíveis de discussão quando há um certo nível intelectual e de respeito mútuo entre os debatedores. Creio que, caso existam essas duas condições, o debate — acadêmico ou de mesa de bar — torna-se proveitoso para ambos (até mesmo se confrontarmos liberalismo econômico e comunismo, esses dois primos que se detestam). É claro, dificilmente se concordará com tudo, ou mesmo com a maioria das questões levantadas, mas é mister ter em mente que, um clichê, somos humanos, sujeitos a falhas, e que nossas ideologias não são matematicamente provadas, caso em que a exatidão da informação nos forçaria a concordar solenemente.
Evidentemente, não acredito em uma verdade suprema, mas a minha história de vida faz com que eu tenha certos posicionamentos e visões de mundo, assim como todas as pessoas. A meu ver, contudo, o problema central de toda insensatez ideológica é a não percepção dessa obviedade — há pessoas que parecem cegas às suas crenças, quaisquer que sejam, e preferem o ataque à discussão séria e clarividência de fatos. Mas, sem querer, acho que minto, já que, na verdade, não existe discussão séria sobre ideais; assunto sério, mesmo, é a ideologia em si.
Ora, não é certo que todas as ideologias daqueles consumidos por elas se demonstram melhores que as outras, provando, paradoxalmente, que todas as demais estão erradas? Para os apaixonados, não há razão; para os ideólogos empedernidos, idem. As discussões não se propõem, então, à busca de um conhecimento mais fundamentado, mas sim à forçosa tentativa de provar que sua verdade é melhor que a do outro. Em outras palavras, o objetivo não é chegar a um consenso, a uma nova teoria construída de derradeiros argumentos válidos, mas sim isto: a minha teoria é bem melhor do que a tua.
Malditas Olimpíadas, que nos desviam o foco dos eventos esportivos realmente relevantes. Afinal, ocorreu em meados deste ano a sensacional 2ª Viva World Cup — ou Copa Viva –, o mais alternativo dos torneios mundiais de futebol de que já (não) se ouviu falar. Contando com a ilustre presença de cinco selecionados, a dita Copa do Mundo ocorreu na Lapônia, nas cidades de Gällivare e Malmberget (”atual” Suécia), entre os dias 7 e 13 de julho.
Um parêntese necessário: a Viva World Cup, torneio organizado pela NF-Board, é uma espécie de Copa do Mundo para “países” não filiados à FIFA por questões políticas. Em outras palavras, são afiliadas à NF-Board nações não reconhecidas pela FIFA ou pelo Mundo (ou desconhecidas, mesmo), como Ilha de Páscoa, Gibraltar, Tibete, Principado de Mônaco e Lapônia, entre outras. Nem todas, por questões logísticas, políticas ou afins, contudo, puderam participar da II Copa Viva.
Mas vamos ao que interessa: como “país-sede”, a experiente equipe da Lapônia, ou “Sápmi”, detentora do título da primeira Copa Viva, em 2006, era tida como grande força do torneio, ao lado do selecionado da Padânia. Mais do que isso, os de Santa Klaus vinham com presunção, já que na final de 2006 haviam batido Mônaco numa final deslumbrante e repleta de travessuras pelo acachapante placar de 21×1 (isso mesmo, VINTE E UM a um).
Torcedores eufóricos
No entanto, a ausência dos goleadores Erik “o Fenômeno” Lamøy, Tom Høgli e Steffen “O Tanque” Nystrøm, parece ter afetado a auto-estima da equipe, posto que esta empatou em 2 na estréia contra a aguerrida, mas limitada, equipe do Curdistão Iraquiano. A rodada inicial ainda teve uma chinelada dos italianos da Padânia contra o selecionado da região francesa de Provença pelo placar de 6×1, numa reedição mais limitada geograficamente, e sem tanto glamour, da final de Copa do Mundo da FIFA-06.
Zidane, idolo de Provença, não jogou
Após o empate da estréia, os curdos foram a campo com galhardia e venceram os de Provença pelo placar de 3 a 0, ao passo que Lapônia começava a dar adeus à competição após perder para os bravos Arameus-Assírios por magro 1 a 0. O campeonato seguiu-se, com Padânia empolgando seu torcedor, lapões chorando pelas ruas, provençais já se despedindo com saudade dos torcedores, enquanto arameus-assírios e curdos digladiavam-se pelo segundo lugar, que garantiria a vaga na final contra os mezzo-italianos. No fim, com o empate em zero que seguraram bravamente contra os curdos, os Assírios puderam comemorar a primeira participação na final da Copa Viva, conforme classificação da primeira fase:
Quis, então, o espírito natalino que, na disputa pelo terceiro lugar, a Lapônia desencantasse e vencesse por 3 a 1 os representantes do Curdistão Iraquiano, com duas buchas de Mikal Eira, duende licenciado e novo astro local. Os lapões, assim, tomaram as ruas em celebração antecipada e, apesar da decepção por não verem seu selecionado na final, a produção de presentes para as crianças não deve ser comprometida.
Participação da Lapônia: presidente não gostou do que viu
Mas eis, então, que chegou o grande dia: Padânia, franca favorita ao título, enfrentava a surpresa semita vinda da Mesopotâmia, os Assírios. Às 20h do dia 13/07/2008, entravam as duas seleções no lotado Gällivare Stadium, para um confronto épico, mas renegado pela mídia feia, boba e golpista.
Padânia, trajando o tradicional uniforme alviverde, logo tomou controle do jogo. Com um futebol tático, mas sem esquecer da arrojada técnica, dominava o meio-campo e não deixava os vermelhos-alaranjados mesopotâmicos jogar. Testemunhas sintetizam que o “brilhante time da Itália dominou o jogo e o provável melhor meio-campo do campeonato marcou, o número 7, Alberto Colombo“. Não é essa, porém, a unanimidade entre aqueles que assistiram à tão distinta peleia futebolística: fontes atestam que assírios vociferaram e culparam o árbitro, o Ocidente e o bife à milanesa pelo revés.
O que fica para os anais, porém, é que o resultado da final, clássico 2×0, fez o escrete da Padânia tornar-se o segundo a levantar o troféu Nelson Mandela, visto o desregramento da Lapônia na defesa do título E DA HONRA. Esta, aliás, que não faltou às mulheres: com duas vitórias memoráveis (4×0 e 11×1), a Lapônia venceu a Copa Viva feminina, que contou com as anfitriãs e as garotas do Curdistão Iraquiano (que ficou com o segundo lugar do campeonato de dois times). Parabéns, gurias!
Seleção feminina do Curdistão Iraquiano: vice-campeã.
Imagens da II Viva World Cup podem ser vistas abaixo:
_____ Nota:
É bom deixar claro que, obviamente, o texto contém enorme utilização de ironias. Não é por desmerecimento às causas dos participantes e aspirantes a nações, e muito pelo contrário, já que acho a Copa Viva uma divertida, embora paliativa, forma de mostrar ao mundo um descontentamento com a situação política atual de seus povos.
Sobre a corrente onda de acusações, gravações e vilanias, que atordoam a República dos Pampas e outrora autoproclamado “estado mais politizado do Brasil”, restrinjo meus esforços à sugestão deste vídeo:
E, aproveitando o ensejo, indico o blog Nova Corja, que é simplesmente sensacional. Corajoso, ácido, profundo e irreverente, como deveria ser todo o jornalismo do país de Rui Barbosa.