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À procura de herois

Nesta sexta-feira, boa parte do país acompanhará a intensa cobertura da mídia que se fará da eleição para a sede dos Jogos Olímpicos de 2016, especialmente por conta de a cidade do Rio de Janeiro estar na disputa. Sediar as Olimpíadas, é sabido, pode resultar em uma profunda transformação social e econômica nos países-sede (daí a vontade governamental em ser hóspede).

Porém, sob um ponto de vista não-econômico, há uma questão essencial – de difícil e não concludente resposta – sobre o assunto: por que razão as pessoas em geral têm tanto interesse nessa competição (e outras mais, como a Copa do Mundo)? E, além, donde deriva o prazer que se tem na simples observação do esporte realizado por outros?

Há diversas interpretações e suposições para responder a esse dilema. Historicamente, os Jogos Olímpicos nasceram na Grécia, como forma de culto ao corpo e aos deuses e saudação aos mortos – o que hoje soa esdrúxulo e sombrio. Foram justamente estas últimas motivações, a propósito, que fizeram com que as Olimpíadas fossem proibidas, pois eram consideradas rituais pagãos na época da ascensão do Cristianismo, religião monoteísta. O interesse pelo esporte, contudo, jamais cessou.

Nicolas Bertin — Faetonte no carro de Apolo.

É somente no século XIX que as Olimpíadas modernas retornam, idealizadas para celebrar a paz entre as nações. Baseando-se nesse ideal, pode-se imaginar que a atenção à competição se dê por questões patrióticas e, de fato, essa é uma hipótese bastante forte. Pois, é comum vermos pessoas torcendo exaltadas por concidadãos totalmente desconhecidos, simplesmente pela bandeira que carregam; ou, tão comum quanto, haver torcida contra representantes de um rival histórico (como a Argentina, no caso brasileiro) ou potência histórica (Estados Unidos e França, por exemplo).

Existem, entretanto, pessoas, que geralmente autointitulam-se “amantes do esporte”, a quem pouco importa a nacionalidade do sujeito que está competindo, mas somente a qualidade do desempenho apresentado pelo atleta. Como os gregos antigos, parecem mais interessados nos limites que podem ser atingidos pelo corpo humano, seja por força ou técnica, do que em questões de amor à pátria.

Entretanto, embora as motivações pareçam bastante distintas, pode-se dizer que ambas coincidem, já que buscam não outra coisa senão a identificação com aquele para quem torcem ou por quem tem admiração. Em outras palavras, há uma busca por um mito, por um heroi. Isso que pode ser percebido na Literatura, no Cinema ou, claro, no esporte. Identificamo-nos com a personagem literária e cinematográfica, no campo da ficção, da mesma forma como com o esportista que conquista a glória por seu esforço e virtudes individuais ou coletivas. De certo modo, o atleta simboliza a busca do ser humano pela perfeição, pela superação de obstáculos e barreiras: vibramos com Cesar Cielo e Michael Jordan, admiramos Federer e Michael Phelps, nos enternecemos com o pobre maratonista que superou as dificuldades da vida e conquistou a medalha olímpica.

Stephen King — Imagem espelhada.

É da identificação com o sujeito, portanto, quer seja pelo local de nascimento, pela habilidade, ou mesmo pelas dificuldades e caráter, que penso nascer o prazer pela observação do esporte. E, embora os diferentes indivíduos tenham as mais distintas percepções e motivações, penso que é da conjunção de fatores, notadamente sociológicos e psicológicos, que advém o interesse pela competição e, por conseguinte, pelos Jogos Olímpicos. Inquestionavelmente, o esporte, mais do que um lucrativo negócio, é uma grande predileção humana.

Por fim, boa sorte ao Rio de Janeiro.

O assobio

Pequenos acontecimentos cotidianos, muitas vezes, fazem com que eu divague e “filosofe” no meio da rua. Há quem considere estranho, esse hábito meu e eu próprio. Verdade é que um carro que buzina insistentemente, o teatro de palhaços na esquina, o mendigo pedindo cigarro, entre outros tantos exemplo, geram dezenas de pensamentos, interpretações e lembranças.

E, dentre todas essas ações ordinárias, uma que invariavelmente me causa devaneios é ver ou escutar alguém assobiando. Ivan Lessa, jornalista do saudoso O Pasquim, hoje auto-exilado — como ele mesmo diz — na Inglaterra, justifica que, talvez, sua permanência em terras bretãs tenha se dado pela ausência do assobio lá.

Segundo ele, no conto O assobio: “Uma das coisas que talvez tenham me levado a ficar na Grã-Bretanha esses anos todos é a ausência do assobio [...] Nós, brasileiros, assobiamos demais”. E, em sua antiga coluna na BBC Brasil, diz “aqui em Londres, quando alguém assobia, principalmente caprichando, recebe imediata ordem de prisão. Acho. E me parece justo.”

Parece-me que, hoje, até não se assobia tanto quanto antigamente. Os iPods e MP4 tornaram o assovio tão antiquado que poucos ousam encher a paciência dos demais com o som descompassado, mal ritmado e chato que sói ser. Ainda assim, toda vez que ouço um, lembro-me da frase acima, que para mim sintetiza muita coisa no que se refere à (falta de) cultura brasileira.

É verdade, reconheço que exagero e reconheço minha chatice. Mais repugnante, é claro, no meu entender, são aqueles que mascam chicletes de boca aberta e fazem bolas com eles. Porém, imaginem, se recordo isso e já me sinto incomodado com algo tão banal, é melhor que eu sequer lembre do que penso quando vejo um pivete drogado tentando assaltar alguém. Não seria agradável, é certo.

e, se bem entendo Lessa. Lessa, com sua habitual ironia, dá a entender que o assobio exprime a falta de cultura geral. é uma qualidade ligada à falta de cultura. Claro, Lessa usa de uma ironia
http://www.terra.com.br/istoe/artes/1999/10/14/004.htm

Marginalizados pela hipocrisia

Uma dos maiores auto-elogios que as pessoas comumente fazem é dizerem-se livres de preconceito. Como que para provar ao mundo que possuem um intelecto superior, moderno, pregam algumas liberdades e o fim do racismo como um fator de requinte do próprio pensamento e postura. Só incomoda-me, contudo, que os preconceitos de que dizem estar livres são, notadamente, aqueles que aparecem na televisão e que são considerados repimíveis por uma sociedade hipócrita.

Reclamam do preconceito que americanos e europeus têm de nós, brasileiros. Dissemos, nós, que é uma injustiça. É, sim — assim como são injustos nossos preconceitos mal-tratados dentro de nosso próprio país. É um pesar que eu conheça várias pessoas racistas. É uma pena que eu conheça diversas pessoas que consideram o racismo um absurdo, mas são plenamente homofóbicos. Um exemplo? Torcidas de futebol, que movem mundos para não serem tachadas como racistas, mas entoam cânticos xingando os torcedores rivais de “putos” e “bichas”.

Isso não me ofende diretamente, já que sou heterossexual. Agora, ofende minha inteligência ver tamanha contradição e, até, fascismo na sociedade. Tenho alguns amigos, até bastante cultos e bem-informados, que vociferam contra negros, contra prostitutas (cuja profissão se trata muito mais de uma última possibilidade de sobrevivência do que de uma escolha), contra homossexuais e argentinos, contra tudo aquilo que não siga um dito padrão de classe média, que se quer de sangue azul. Fico enjoado. Enojado.

É claro, eu também tenho meus preconceitos. Aliás, não acredito em quem diz que não possui preconceitos — um atestado de hipocrisia, para mim. É um erro, é certo, mas despir-se de todos os conceitos antecipados não é tarefa fácil. Porém, só é possível mudar dogmas particulares tendo conhecimento de sua existência como tal e, claro, ter a noção de que é um comportamento plenamente estúpido. Revisito os meus periodicamente, e meus conceitos invariavelmente mudam.

Problemático é que a sociedade em geral só reconhece seus preconceitos quando estes aparecem na novela das 21h. Aí, rapidamente mudam suas atitudes, para “não pegar mal” e manterem-se baluartes da ética e dos bons costumes. Disseminadores de ofensivas declarações totalitárias tornam-se, da noite para o dia, defensores contumazes da liberdade do dia. Triste é ter que conviver com tanta falsidade.

Inovação, Cultura e devaneios

O Zanatta e eu estamos debatendo bastante, nos últimos dias, sobre inovação. Somos muito amigos, mas raramente corroboramos opiniões sem antes esmiuçar o debate. Talvez seja o maior mérito (ou problema) de nossas conversas, o fato de elas não se restringirem a um único tópico, e sempre derivarem para outros. Nessa discussão, por exemplo, que inicialmente era de ideias sobre inovação, passamos a devaneios sobre cultura e sua importância, entre outros assuntos relacionados.

Ele, que anda estudando com afinco características e consequências da inovação para o desenvolvimento empresarial ou, lato sensu, dos países, sustenta, embasadamente, que o Brasil é um país que muito pouco investe em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Por fatores culturais, muito provavelmente, pensamos; de psicologia coletiva derivada de mitos insconscientes, penso eu após algumas leituras (mas falarei sobre isso daqui a algumas semanas). E começamos a falar sobre cultura geral, geralmente tida como supérflua pelo seu aspecto pouco prático, ou, em outras palavras, por não dar dinheiro. É a visão que se tem, no nosso país, e basta olhar para os quartos e salas dos apartamentos: ninguém lê, nem pesquisa, nem assiste bons filmes, provavelmente porque não vejam benefício na atividade.

No entanto, acho que embora o fato de uma pessoa ser culta, erudita, não traga vantagens imediatistas, creio que, indiretamente, esse é o principal propulsor para um desenvolvimento estável, não oriundo simplesmente da sorte e das conjunturas. Julgo necessário, enfim, uma massa pensante para que se construa o novo, se desconstruam conhecimentos, dogmas, óbvios.

O pensamento mais perspicaz e contestador, característico da reflexão, leitura e experiência, muitas vezes marginalizado, no fim talvez seja o fator primordial para uma sociedade que almeja desenvolvimento. É um dos desafios brasileiros — e globais — modernos, para além o pós-moderno: criticar. Só se pode criticar e criar o novo quando se sabe, ou se tem noção, de onde viemos e de como é o ambiente que nos cerca, suas manifestações e anseios. Temos, então, uma pequena inversão de lógica: se antes a cultura era encarada como bem supérfluo, agora, deve se tornar um “mal” mais que necessário — e urgente.

Champagne e caviar (em 10x sem juros)

Dentre as muitas atitudes que considero ridículas, acho que a ostentação é a que melhor representa a futilidade da sociedade, sobretudo da cidade em que nasci. Uma sociedade que se deslumbra consigo mesmo e vangloria-se dos méritos que não possui. Pois, um conjunto de pessoas que sente necessidade de utilizar grifes para mostrar-se bem-sucedido e interessante pode ser qualquer coisa, menos digno de interesse e superior.

É bom deixar claro: absolutamente, não sou contrário às marcas. Prefiro Coca-Cola, gosto de boas roupas e perfumes, mas há uma clara diferença entre preferir algo e não ter consciência além da ideia vendida na propaganda da televisão. Se gosta do design da Adidas, ótimo; se prefere outra marca, Nike, Diadora, Armani, algo mais alternativo, sei lá, tanto faz, que seja feliz com seu estilo e consciência.

O detalhe é que, geralmente, tal escolha não se faz pelo estilo ou qualidade, mas simplesmente pelo preço. Enquanto vemos pessoas que têm dinheiro e são simples, vemos também, e mais ainda, outras que hipotecariam a casinha do cachorro para poder comprar uma camiseta de marca.

Aparência é importante, sim — todas as pessoas querem conforto ou, mesmo, luxo. Porém, questiono: é essencial, superando ética, valores e uma certa dose de inteligência?

Tenho alguns julgamentos, e até preconceitos, com relação à soberba — para mim, a ostentação serve para maquiar uma ausência brutal de conteúdo e fantasiar mais sucesso (ou, até, fantasiá-lo completamente). Curioso é que, para a maioria das pessoas, tais modos são bem-vistos. Quer dizer: no fim, talvez a arrogância seja uma virtude moderna e eu não sabia.

Vota, Brasil

Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.
(João Batista Figueiredo)

Brasilidade

“O brasileiro é um povo com os pés no chão – e as mãos também.”
(Ivan Lessa)

Escândalo no Rio Grande

Sobre a corrente onda de acusações, gravações e vilanias, que atordoam a República dos Pampas e outrora autoproclamado “estado mais politizado do Brasil”, restrinjo meus esforços à sugestão deste vídeo:

E, aproveitando o ensejo, indico o blog Nova Corja, que é simplesmente sensacional. Corajoso, ácido, profundo e irreverente, como deveria ser todo o jornalismo do país de Rui Barbosa.

“Brasil, mostra tua cara”, já dizia o “poeta”

- Como andam as aulas?
- Bah, nem me fala. Tenho prova de Matemática hoje à noite…
- Prova de Matemática numa sexta à noite? Tu só podes estar louca!
- É complicado… Tive duas provas nesta semana. E os professores são f… O ensino no Brasil é muito fraco. Aí a gente trabalha todos os dias e tem que ler no final de semana, ainda. Ah, eu não! Quero mais é descansar no final de semana!
- Pois é, tudo que a gente não quer é ler livros no final de semana… Mas, e o trabalho?
- Tá cansativo. Mas quero só me formar para fazer logo um concurso público e viver na mordomia.
[...]

Todo esse diálogo repleto de lugares-comuns e asneiras enquanto eu tentava continuar com a leitura d’A Náusea, de Sartre, no ônibus. Tarefa impossível, dado os dois efusivos passageiros do banco de trás. Senti-me, de certa forma, impotente. Queria, nesse momento, supôr que eles fossem a encarnação do Demo e ter tido o atrevimento do Rei Juan Carlos da Espanha, virar-me e vociferar “¿Por qué no te callas?”, despejando, assim, toda minha ira à estupidez e falta de educação.

Mas não; sou condescendente a tudo isso.

PS: o diálogo foi exatamente como descrito (até anotei, já que, igual, eu não conseguia me concentrar na leitura). Infelizmente.

Horário Político (ou Uma Confissão sobre a Desesperança)

Alguns amigos me perguntam, e eu mesmo me questiono, sobre os porquês de eu ter deixado de lado a vida política, digamos assim. Confesso que, aparentemente, nem eu sei bem a resposta, mas tergiverso a seguir (o que talvez ajude a que eu mesmo conheça-a). Afinal, por que alguém que já estava de certa forma habituado a viver tomando decisões que interfiriam — mais indireta do que diretamente, é certo — na vida das pessoas abandona esse encargo?

De fato, desde a infância eu tive experiências nesse contexto, a saber, vice-presidente de DCE, presidente de Diretório Acadêmico, presidente do Grêmio Estudantil e líder de turma diversas vezes, além do convite para ser presidente da Juventude do PSDB (JPSDB) de Lajeado há três anos. Sem falsa modéstia, é um perfil bastante afim de pessoas que seguiram a carreira política, como inúmeros deputados e senadores.

Evidentemente, não estou supondo que alcançaria tais cargos, até porque acho que, para isso, é necessária alguma retórica, “padrinhos” e a omissão de vários princípios, posto que o dia-a-dia desse meio revela ingratas conjunturas. Algumas são bastante óbvias: por trás de um discurso de “bem social”, está o interesse de uma quinzena de empresários, lobistas e, por que não, do próprio político; travestido na oratória da busca por uma universidade melhor, está o interesse na visibilidade, na autopromoção, nem sempre com os fins mais idôneos. Eis, então, exemplos da tão propalada demagogia, que, quando jovem e crente na possibilidade de um mundo mais justo, eu achava que existisse, mas que fosse mais um termo midiático do que a crua realidade. Mas há o tempo, o senhor da razão. Um lugar-comum.

O problema maior, se é possível chamar assim, é que tal modus operandi não é pontual; as cousas políticas são à essa maneira inflexivelmente, e sempre. Pensa-se, diuturnamente, em como se usar de uma mazela da sociedade para angariar votos, apoios, dinheiro. Talvez o leitor atento argumente que nas empresas ocorre a mesma coisa, com o que concordo apenas parcialmente. Afinal, é uma verdade patente que, na iniciativa privada, se vê muito desses “juguetes”. No entanto, aqui, as disputas de poder, a priori, são mais leais, como que em uma partida de xadrez na qual o tabuleiro mostra-se como ambiente selvagem, mas bem menos cruel — não se está usando ardilosamente dos problemas da vida de milhares para seu interesse como faz o Poder Executivo, por exemplo.

Por isso tudo, e mais alguns fatos que não cabe colocar aqui, é que a Política, ou melhor, a politicagem, me é repugnante. Logo eu, que quando adolescente dizia que o problema do País era a falta de vontade para o debate político, coloco-me contra os velhos dogmas. Logo eu, que ousava repreender meus pais porque desligavam a televisão na hora da propaganda eleitoral… Como ilustração disso, há uma música com a qual eu e minha irmã nos identificamos bastante, chamada Outras Freqüências, dos Engenheiros do Hawaii, que versa “não vemos graça nas gracinhas da tv, morremos de rir no horário eleitoral”. Acho que resume bem meu atual sentimento, pois o horário político obrigatório serve, hoje, para boas risadas em vez da audição das velhas palavras repetidas, de jargões pomposos e idéias superficiais. Tudo isso repugna, enoja, e o mundo, hoje, se apresenta acinzentado, sem vida nem brios. Náusea, talvez dissesse um depressivo Sartre.

Sendo assim, não é que eu tenha me afastado dessa esfera por inteiro livre-arbítrio ou que seja conivente com um Poder instituído. Não. Só que, insistente em preservar certos valores ético-morais, torno-me a cada dia mais desesperançoso quanto aos rumos dos governos e, principalmente, lastimoso quanto à falta de escrúpulos do ser humano.



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