Infelizes, não de deprimam

“Cuidado com a tristeza. Ela é um vício”.
Gustave Flaubert

Conheço, e imagino que todos devam conhecer, gente que se diz deprimida. Ninguém mais se considera infeliz, ou mesmo triste: todos aqueles que estão em dias ruins consigo mesmo estão “em depressão”, nas palavras deles. Embora pareça uma diferença tola, isso está longe longe de ser uma questão meramente semântica.

A depressão está associada a problemas patológicos, necessita de tratamento, geralmente com uso de ansiolíticos e antidepressivos. A tristeza, por outro lado, é tão-somente um estado natural da vida de toda e qualquer pessoa — ou deveria ser assim, ao menos.

Van Gogh — Velho na Tristeza (No Limiar da Eternidade).

A principal diferença reside no fato de que, para o infeliz que se julga em depressão, a felicidade é um direito irrevogável. Caso não esteja feliz, é devido a um distúrbio neurológico, jamais graças ao modo de viver e ver a vida. Quer um hedonismo permanente, só que por vias sintéticas. Em vez de buscar o próprio desenvolvimento para sentirem-se satisfeitas, essas pessoas buscam subterfúgios médicos.

A melancolia, sugerem os autores de tempos os mais remotos, acompanha a humanidade desde que se há registros. É totalmente natural, como Cervante diz: “as tristezas não foram feitas para os animais, mas para os homens”. Mas parece, contudo, que à sociedade moderna não agrada continuar sendo humana.