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Sobre conhecimento (e devaneios)

O comentário do Jones no post Inovação, Cultura e devaneios, em que ele pergunta se “nunca se imaginaram, ou até mesmo pensaram como deve ser bom estar entregue as trevas da ignorância?” me fez lembrar de alguns debates que já tive com amigos e que iam de encontro justamente ao que ele questiona.

O Jones é meu amigo de longa data, e sei muito bem que quando ele se diz culto e politizado é porque, de fato, ele o é — e bastante, diga-se. Mas eu me questiono, diversas vezes, se não superestimo o que sei e, por consequência, superestime a mim mesmo. Talvez o Jones concorde com isso e com o exemplo que segue.

Considero que entendo e me preocupo razoavelmente com política, para citar um assunto, e invejo aqueles que são alheios a tudo. Parecem-me mais felizes, despreocupados, assim. Invejo, repito. Porém, coloco-me no lugar de algum político, um deputado, um senador, ou até um vereador. Será que ele não pensa que EU é que sou feliz, por não saber “da missa a metade”, isto é, apesar ter ideia de como são as coisas, mas não saber com propriedade? Será que eu soubesse como funcionam, na prática, os lobbies, eu não seria ainda mais insone e desacreditado com o mundo?

Novamente, penso que dou excessivo valor àquilo que sei, e que provavelmente nem seja tanto assim. Às vezes, fico pensando naquela frase célebre que se atribui a Sócrates, “só sei que nada sei”, e fico desconfortável. Eu sei, a sério, que nada sei? Meu parecer é negativo: eu deveria ter mais humildade, não só da boca para fora, perante os assuntos que me cercam e ter a consciência de que eu possivelmente esteja errado.

O que serve para este post, inclusive, que não é uma verdade absoluta.

Koyaanisqatsi — A Vida em Desequilíbrio

Um filme reflexivo. Assim poderia ser definido Koyaanisqatsi (1983), título praticamente impronunciável provindo do hopi “vida desequilibrada”. Mas o documentário poderia, adicionalmente, ser determinado como uma obra-prima visual, exploradora da nossa interpretação com relação ao tempo, à tecnologia e à modernidade em si.

Pois, essa é melhor síntese para uma película que, em suas duas horas, não apresenta um diálogo sequer. As descomunais belas imagens, que seguem à risca a velocidade da trilha sonora (ora lentas, ora frenéticas), funcionam muito bem para a imersão do espectador no caráter meditativo do filme. Paradoxalmente, as mesmas pessoas que compõe a sociedade impaciente, cujos carros aceleram nas rodovias e que destroem o que for preciso para construir algo maior e mais moderno, são as que são instigadas à reflexão sobre a própria relação com o tempo.

As duas horas do filme funcionam como um botão de “pause” para o ritmo da própria vida, levando cada um a questionamentos sobre seus valores. Alternando imagens naturais com imagens da megalópole, somos inclinados a pensar sobre nossa relação, geralmente desarmoniosa, com a natureza. Exibindo as mais variadas tecnologias e o frenesi que dela advém, pensamos se realmente aproveitamos nossa existência. Pensamos, ademais, se é essa a sociedade em que queremos passar o resto de nossos dias.

Aparentemente inofensivo, Koyaanisqatsi faz o que, atualmente, é o mais difícil em qualquer atividade: induzir ao pensamento pessoal sobre o mundo que cerca. Nisto reside o maior mérito do filme: indubitalvemente, as perguntas que cada um faz a si mesmo durante o filme são bastante próprias e oportunas.

Lassidão

De tempos em tempos, faço reflexões a respeito dos rumos que minha vida têm tomado. Talvez todas as pessoas façam isso, não sei, mas suspeito que a maioria tenha ideias mais ou menos claras quanto às suas ambições.

Quanto a mim, no momento, não tenho a mais ínfima noção sobre como, onde e de que forma estarei daqui a seis meses, um ano. Noto cada vez mais claramente que pouco tenho evoluído nos últimos tempos em questões que julgo essenciais, a saber, cultura e comprometimento.

Tenho emburrecido, e só posso culpar a mim mesmo por isso. Uma vida desregrada cobra logo ali, adiante. Percebo, no entanto, que, neste momento,  a cobrança vem apenas de mim — surpreendentemente, o mundo à volta tem dado algumas mostras de que as virtudes conquistadas no passado são reconhecidas hoje, no presente.

O cerne da questão, assim, é: e quando essas mesmas virtudes já não forem suficientes, necessitem de adendos que não foram acrescidos? Não vejo outra forma de responder a isso senão iniciando, já, uma pequena revolução. Que, afinal, nem é tão revolucionária — basta voltar a ser o que outrora já fui.

Volto em breve, e melhor.



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