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Geração de Releituras

Acho curiosíssima a moda atual entre todos aqueles que gostam de Literatura (ou que se fazem passar por amantes dela) de, ao serem questionados sobre o livro que estão lendo, sempre sublinharem estar, na verdade, relendo a obra, seja Crime e Castigo, Dom Casmurro, Ensaio Sobre a Cegueira, Os Irmãos Karamazov, O Vermelho e o Negro, Guerra e Paz, Cem Anos de Solidão, etc., etc., etc. — mesmo que, na verdade, seja o primeiro contato com o texto.

Parece-me que há uma certa vergonha em se admitir que não tenha lido todas as grandes obras da Literatura Universal. Exemplifico: ontem, terminei a leitura d’O Jogador, do Dostoievski, e postei isso no Twitter. Mais tarde, no MSN, um amigo me interpelou: “Como assim, tu nunca tinha lido O Jogador?!”. Não, não havia. E, até agora, estou pensando se isso deveria ser motivo de vergonha. Será que, com 23 anos, eu já deveria ter lido tudo de relevante que há, dos russos aos franceses, dos sul-africanos aos ingleses e americanos, passando pelos latinos, helênicos e orientais? Tenho a impressão que não.

Edward Hopper — Compartimento C, Carro 193.

Não é um conceito meu, mas acredito que a Geração Wikipédia (ou Geração Google) necessita demonstrar erudição, mesmo que não a tenha e que ela só venha com o passar de vários anos e das horas, solitárias, de estudo e meditação. Na época do imediatismo, contudo, é fácil parecer conhecer mesmo aquilo que jamais se ouviu falar. “Quem mexe com Internet, fica bom em quase tudo. Quem tem computador, nem precisa de estudo”, diz uma interessante letra do Pato Fu (na minha opinião, uma das poucas boas bandas brasileiras de rock, aliás). A esse respeito, também, o amigo Tiago Bald faz chacota, ao citar um livro que desconheço, algo como “Manual para Discutir Obras Não-Lidas”, pregando ser possível discutir qualquer obra literária a partir de certos chavões. Não duvido, dadas muitas provas empíricas.

Quanto a mim, prefiro manter uma certa humildade no assunto. Não li boa parte daquilo que é “obrigatório” para um cidadão que quer se dizer conhecedor de Literatura. Não sou isso, então. Não me preocupo, já que haverá tempo para que grande parte daquilo que quero ler seja, de fato, lido (não em resenhas da Internet). Porém, a propósito, chegará o dia, sem dúvida, em que será comum que gente, do alto dos seus 17, 18 anos, dirá estar relendo A Comédia Humana, de Balzac — e fazendo anotações e correções de estilo.

Instabilidade e Progresso

Dentre as não muitas qualidades que tenho, acho que a de que mais me ufano é minha capacidade de mudar de opinião. Não trato aquilo que digo como verdade absoluta e até pelo contrário: diversas vezes me pego pensando se aquilo que falei está certo, sob meu ponto de vista. E isso, na maioria das vezes, é mal-interpretado.

Percebo que, no intuito de facilitar o entendimento, a maioria das pessoas reduz um pensamento com diversas variáveis àquilo que é dito, sem perceber o extenso raciocínio que há por trás. Desse modo, uma mudança de opinião pode ser vista como mudar “da água para o vinho” ou vice-versa quando, em verdade, não passa de uma pequena mudança na construção da ideia — o que, é claro, pode alterar completamente a ideia última, aquela que é falada e divulgada.

Glenn Brady — Goodbye Letters on the Bridge.

Ainda assim, não é que eu mude de opinião do dia para a noite, embora isso às vezes aconteça. As mudanças são geralmente lentas e graduais, como deve ser todo progresso. Isto é, sem grandes revoluções, mas uma evolução bem alicerçada e corajosa. Sim, pois emitir uma opinião gera expectativas — espera-se que o comportamente posterior seja fiel àquilo que é dito. Ao negar o que fora falado, a incompreensão (ou o incômodo gerado pela não-linearidade da opinião e da ação) decepciona e isto, decepcionar quem quer que seja, é algo de que todos fogem.

Conheço muita gente que segue defendendo uma bandeira pelo simples fato de tê-la defendido no passado e ter sua imagem ligada a ela. É como se negassem a própria evolução, raciocínio e aprendizado para que o seu círculo de amigos e conhecidos não os trate como “traidores” ou, tão usual quanto, como “pessoas sem opinião”. No fim, para não admitirem a própria mudança, tornam-se hipócritas ressentidos. Não me parece um caminho lá muito feliz.

Destarte, prefiro, nisso tudo, vagar com a pretensa liberdade que temos para pensar e mudar as formas de ver e perceber sempre que assim entender. A partir do momento em que realmente se tem consciência de que verdades absolutas não existem, aprende-se a relativizar, a colocar o próprio pensamento (e ego) no lugar merecido: um meio, não o objetivo. Relevante, mas não fim último.

A promessa e o (não-)cumprimento

Agências de publicidade, via de regra, vocês certamente sabem, prometem cuidar totalmente da comunicação de seus clientes, conhecendo seus negócios, seus clientes, seus mercados e, assim, tornando certeira a propaganda e todos os “que tais” provenientes. Acho espetacular, realmente, essa intenção — no caso, evidentemente, de não ser mal-intencionada.

O problema reside, contudo, na aplicação prática, na execução, dessa ideia. Ora, como é possível que se fique o dia pensando em estratégias diferenciadoras para o cliente se, ao cabo, o que se recebe é pela veiculação da peça, por melhor ou pior que ela seja?

Exemplificando: em projetos maiores, costumamos despender (sim, eu trabalho em uma agência, apesar de não ser um publicitário) um maior número de horas para pensarmos na melhor solução — possível — para a campanha do cliente. Comumente, essas horas de pensamento e dedicação são sequer notadas pelo anunciante, de modo que o que se recebe é o mesmo que uma campanha mixuruca. E cabe lembrar, para colocar mais pontos à baila de discussão, que a agência de publicidade também necessita de resultados (financeiros, leia-se), de modo que se torna inviável agir de modo aderente e penetrante na cultura da empresa aos níveis de remuneração pagos. Céus!, não parece isso tudo impraticável?!

O problema final não é outro senão de coerência: ou cumpre-se o afirmado ou não se promete além da capacidade. É tão óbvio que até angustia. Ainda assim, a maioria das agências tradicionais de propaganda segue oferecendo mágicas ao preço de simples truques de cartas, vendendo quadros de Frida Kahlo quando só pode entregar obras do caricaturista da esquina.

Marginalizados pela hipocrisia

Uma dos maiores auto-elogios que as pessoas comumente fazem é dizerem-se livres de preconceito. Como que para provar ao mundo que possuem um intelecto superior, moderno, pregam algumas liberdades e o fim do racismo como um fator de requinte do próprio pensamento e postura. Só incomoda-me, contudo, que os preconceitos de que dizem estar livres são, notadamente, aqueles que aparecem na televisão e que são considerados repimíveis por uma sociedade hipócrita.

Reclamam do preconceito que americanos e europeus têm de nós, brasileiros. Dissemos, nós, que é uma injustiça. É, sim — assim como são injustos nossos preconceitos mal-tratados dentro de nosso próprio país. É um pesar que eu conheça várias pessoas racistas. É uma pena que eu conheça diversas pessoas que consideram o racismo um absurdo, mas são plenamente homofóbicos. Um exemplo? Torcidas de futebol, que movem mundos para não serem tachadas como racistas, mas entoam cânticos xingando os torcedores rivais de “putos” e “bichas”.

Isso não me ofende diretamente, já que sou heterossexual. Agora, ofende minha inteligência ver tamanha contradição e, até, fascismo na sociedade. Tenho alguns amigos, até bastante cultos e bem-informados, que vociferam contra negros, contra prostitutas (cuja profissão se trata muito mais de uma última possibilidade de sobrevivência do que de uma escolha), contra homossexuais e argentinos, contra tudo aquilo que não siga um dito padrão de classe média, que se quer de sangue azul. Fico enjoado. Enojado.

É claro, eu também tenho meus preconceitos. Aliás, não acredito em quem diz que não possui preconceitos — um atestado de hipocrisia, para mim. É um erro, é certo, mas despir-se de todos os conceitos antecipados não é tarefa fácil. Porém, só é possível mudar dogmas particulares tendo conhecimento de sua existência como tal e, claro, ter a noção de que é um comportamento plenamente estúpido. Revisito os meus periodicamente, e meus conceitos invariavelmente mudam.

Problemático é que a sociedade em geral só reconhece seus preconceitos quando estes aparecem na novela das 21h. Aí, rapidamente mudam suas atitudes, para “não pegar mal” e manterem-se baluartes da ética e dos bons costumes. Disseminadores de ofensivas declarações totalitárias tornam-se, da noite para o dia, defensores contumazes da liberdade do dia. Triste é ter que conviver com tanta falsidade.



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