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Infelizes, não de deprimam

“Cuidado com a tristeza. Ela é um vício”.
Gustave Flaubert

Conheço, e imagino que todos devam conhecer, gente que se diz deprimida. Ninguém mais se considera infeliz, ou mesmo triste: todos aqueles que estão em dias ruins consigo mesmo estão “em depressão”, nas palavras deles. Embora pareça uma diferença tola, isso está longe longe de ser uma questão meramente semântica.

A depressão está associada a problemas patológicos, necessita de tratamento, geralmente com uso de ansiolíticos e antidepressivos. A tristeza, por outro lado, é tão-somente um estado natural da vida de toda e qualquer pessoa — ou deveria ser assim, ao menos.

Van Gogh — Velho na Tristeza (No Limiar da Eternidade).

A principal diferença reside no fato de que, para o infeliz que se julga em depressão, a felicidade é um direito irrevogável. Caso não esteja feliz, é devido a um distúrbio neurológico, jamais graças ao modo de viver e ver a vida. Quer um hedonismo permanente, só que por vias sintéticas. Em vez de buscar o próprio desenvolvimento para sentirem-se satisfeitas, essas pessoas buscam subterfúgios médicos.

A melancolia, sugerem os autores de tempos os mais remotos, acompanha a humanidade desde que se há registros. É totalmente natural, como Cervante diz: “as tristezas não foram feitas para os animais, mas para os homens”. Mas parece, contudo, que à sociedade moderna não agrada continuar sendo humana.

Koyaanisqatsi — A Vida em Desequilíbrio

Um filme reflexivo. Assim poderia ser definido Koyaanisqatsi (1983), título praticamente impronunciável provindo do hopi “vida desequilibrada”. Mas o documentário poderia, adicionalmente, ser determinado como uma obra-prima visual, exploradora da nossa interpretação com relação ao tempo, à tecnologia e à modernidade em si.

Pois, essa é melhor síntese para uma película que, em suas duas horas, não apresenta um diálogo sequer. As descomunais belas imagens, que seguem à risca a velocidade da trilha sonora (ora lentas, ora frenéticas), funcionam muito bem para a imersão do espectador no caráter meditativo do filme. Paradoxalmente, as mesmas pessoas que compõe a sociedade impaciente, cujos carros aceleram nas rodovias e que destroem o que for preciso para construir algo maior e mais moderno, são as que são instigadas à reflexão sobre a própria relação com o tempo.

As duas horas do filme funcionam como um botão de “pause” para o ritmo da própria vida, levando cada um a questionamentos sobre seus valores. Alternando imagens naturais com imagens da megalópole, somos inclinados a pensar sobre nossa relação, geralmente desarmoniosa, com a natureza. Exibindo as mais variadas tecnologias e o frenesi que dela advém, pensamos se realmente aproveitamos nossa existência. Pensamos, ademais, se é essa a sociedade em que queremos passar o resto de nossos dias.

Aparentemente inofensivo, Koyaanisqatsi faz o que, atualmente, é o mais difícil em qualquer atividade: induzir ao pensamento pessoal sobre o mundo que cerca. Nisto reside o maior mérito do filme: indubitalvemente, as perguntas que cada um faz a si mesmo durante o filme são bastante próprias e oportunas.

Champagne e caviar (em 10x sem juros)

Dentre as muitas atitudes que considero ridículas, acho que a ostentação é a que melhor representa a futilidade da sociedade, sobretudo da cidade em que nasci. Uma sociedade que se deslumbra consigo mesmo e vangloria-se dos méritos que não possui. Pois, um conjunto de pessoas que sente necessidade de utilizar grifes para mostrar-se bem-sucedido e interessante pode ser qualquer coisa, menos digno de interesse e superior.

É bom deixar claro: absolutamente, não sou contrário às marcas. Prefiro Coca-Cola, gosto de boas roupas e perfumes, mas há uma clara diferença entre preferir algo e não ter consciência além da ideia vendida na propaganda da televisão. Se gosta do design da Adidas, ótimo; se prefere outra marca, Nike, Diadora, Armani, algo mais alternativo, sei lá, tanto faz, que seja feliz com seu estilo e consciência.

O detalhe é que, geralmente, tal escolha não se faz pelo estilo ou qualidade, mas simplesmente pelo preço. Enquanto vemos pessoas que têm dinheiro e são simples, vemos também, e mais ainda, outras que hipotecariam a casinha do cachorro para poder comprar uma camiseta de marca.

Aparência é importante, sim — todas as pessoas querem conforto ou, mesmo, luxo. Porém, questiono: é essencial, superando ética, valores e uma certa dose de inteligência?

Tenho alguns julgamentos, e até preconceitos, com relação à soberba — para mim, a ostentação serve para maquiar uma ausência brutal de conteúdo e fantasiar mais sucesso (ou, até, fantasiá-lo completamente). Curioso é que, para a maioria das pessoas, tais modos são bem-vistos. Quer dizer: no fim, talvez a arrogância seja uma virtude moderna e eu não sabia.



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