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Trem descarrilhado

[outro texto desinteressante]
Leio e ouço, quase que diariamente, que uma vida de sucesso é uma vida em que se faz o que se gosta. Incomodo-me com o tema. Constrange-me, a propósito, quando vejo meus amigos com metas e ambições: tornar-se rico, fazer mestrado no exterior, ser executivo de uma grande empresa, ser famoso, se tornar vereador, prefeito, o que for. Pois, eu não possuo nenhuma grande ambição, especialmente profissional, e, pior, não sei exatamente do que gosto.

Na verdade, um pouco sei. Gosto de Literatura, Música, pesquisar assuntos aleatórios, assistir a filmes, escrever, negociar — mas não o tempo todo. Subvertendo o eterno retorno nietzscheano, diria que nada que faço realmente me dá gosto e repetiria eternamente, com exceção, talvez, das noites de boemia. Porém, ser boêmio não deve ser, por definição, uma meta de vida.

Vincent Van Gogh — Campo de Trigo com Corvos.

“Trabalhe naquilo que gosta”, diz o mantra para mim tão impossível. Minhas predileções não servem para sustentar. Isto é, ler, ouvir música e escrever (mal e cada vez pior) não são profissões. Ao menos, não aos 20 e poucos anos; com 40, vá lá. É claro que, naturalmente, faço tudo isso nos meus momentos de ócio, ainda que de maneira errática. Mas não é uma profissão, não é trabalho, é puro deleite.

Disso decorre meu desprendimento a muita coisa neste momento. Tenho um bom emprego, que estou jogando fora; estudo em uma boa universidade, e não a aproveito; aparecem dezenas de oportunidades, e não sei se as quero. Sinto-me desgovernado e não há objetivo, nem profissional, nem pessoal, no horizonte. A letra de Runaway Train, do Soul Asylum, talvez nunca tenha feito tanto sentido.

How on earth did I get so jaded
Life’s mystery seems so faded

I can go where no one else can go
I know what no one else knows
Here I am just drownin’ in the rain
With a ticket for a runaway train

And Everything seems cut and dry
Day and night, earth and sky
Somehow I just don’t believe it

Quero crer que esse sentimento de inutilidade e desapego ao futuro seja passageiro. Ainda busco forças para tentar ganhar, mesmo que eu não saiba ao certo qual jogo estou jogando. É cada vez mais difícil, porém, lutar por uma causa totalmente desconhecida e duvido que um dia haverá glória ou recompensa. Apenas, quem sabe, compaixão; mas, para o vencedor, as batatas.

Infelizes, não de deprimam

“Cuidado com a tristeza. Ela é um vício”.
Gustave Flaubert

Conheço, e imagino que todos devam conhecer, gente que se diz deprimida. Ninguém mais se considera infeliz, ou mesmo triste: todos aqueles que estão em dias ruins consigo mesmo estão “em depressão”, nas palavras deles. Embora pareça uma diferença tola, isso está longe longe de ser uma questão meramente semântica.

A depressão está associada a problemas patológicos, necessita de tratamento, geralmente com uso de ansiolíticos e antidepressivos. A tristeza, por outro lado, é tão-somente um estado natural da vida de toda e qualquer pessoa — ou deveria ser assim, ao menos.

Van Gogh — Velho na Tristeza (No Limiar da Eternidade).

A principal diferença reside no fato de que, para o infeliz que se julga em depressão, a felicidade é um direito irrevogável. Caso não esteja feliz, é devido a um distúrbio neurológico, jamais graças ao modo de viver e ver a vida. Quer um hedonismo permanente, só que por vias sintéticas. Em vez de buscar o próprio desenvolvimento para sentirem-se satisfeitas, essas pessoas buscam subterfúgios médicos.

A melancolia, sugerem os autores de tempos os mais remotos, acompanha a humanidade desde que se há registros. É totalmente natural, como Cervante diz: “as tristezas não foram feitas para os animais, mas para os homens”. Mas parece, contudo, que à sociedade moderna não agrada continuar sendo humana.



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