Marginalizados pela hipocrisia
Uma dos maiores auto-elogios que as pessoas comumente fazem é dizerem-se livres de preconceito. Como que para provar ao mundo que possuem um intelecto superior, moderno, pregam algumas liberdades e o fim do racismo como um fator de requinte do próprio pensamento e postura. Só incomoda-me, contudo, que os preconceitos de que dizem estar livres são, notadamente, aqueles que aparecem na televisão e que são considerados repimíveis por uma sociedade hipócrita.
Reclamam do preconceito que americanos e europeus têm de nós, brasileiros. Dissemos, nós, que é uma injustiça. É, sim — assim como são injustos nossos preconceitos mal-tratados dentro de nosso próprio país. É um pesar que eu conheça várias pessoas racistas. É uma pena que eu conheça diversas pessoas que consideram o racismo um absurdo, mas são plenamente homofóbicos. Um exemplo? Torcidas de futebol, que movem mundos para não serem tachadas como racistas, mas entoam cânticos xingando os torcedores rivais de “putos” e “bichas”.
Isso não me ofende diretamente, já que sou heterossexual. Agora, ofende minha inteligência ver tamanha contradição e, até, fascismo na sociedade. Tenho alguns amigos, até bastante cultos e bem-informados, que vociferam contra negros, contra prostitutas (cuja profissão se trata muito mais de uma última possibilidade de sobrevivência do que de uma escolha), contra homossexuais e argentinos, contra tudo aquilo que não siga um dito padrão de classe média, que se quer de sangue azul. Fico enjoado. Enojado.
É claro, eu também tenho meus preconceitos. Aliás, não acredito em quem diz que não possui preconceitos — um atestado de hipocrisia, para mim. É um erro, é certo, mas despir-se de todos os conceitos antecipados não é tarefa fácil. Porém, só é possível mudar dogmas particulares tendo conhecimento de sua existência como tal e, claro, ter a noção de que é um comportamento plenamente estúpido. Revisito os meus periodicamente, e meus conceitos invariavelmente mudam.
Problemático é que a sociedade em geral só reconhece seus preconceitos quando estes aparecem na novela das 21h. Aí, rapidamente mudam suas atitudes, para “não pegar mal” e manterem-se baluartes da ética e dos bons costumes. Disseminadores de ofensivas declarações totalitárias tornam-se, da noite para o dia, defensores contumazes da liberdade do dia. Triste é ter que conviver com tanta falsidade.
nao te preocupa rafinha, vai chegar o dia que tu vai conseguir mudar o mundo… hehe…
quem sabe um dia a globo não faz uma novela baseada no teu livro….