O filho de Teresa
Esta é uma história sobre Teresa — uma jovem que tem outro nome, na verdade.
Pois, Teresa, na semana passada, matou seu filho.
Arthur, o nome dele. Pouquíssimos tiveram conhecimento do fato, menos ainda deram-se por falta. Não era comum perceber o filho, escondido sob os segredos de uma recém-moça, que mal entrara na faculdade e já precisava mudar repentinamente todos os planos. A ansiedade decorrente disso, aliás, fê-la, com aqueles cabelos desajeitados e caminhar com um pouco de desleixo (ou preguiça), parecer ainda mais estranha a todos. Seus olhos, negros e fundos, pareciam esconder-se da face em pensamentos virados para o próprio interior.
Arthur é filho de um homem de olhos claros, usualmente vestido com boa intenção, não obstante use de combinações estranhas, como calças claras e camisa xadrez. É dono de um pequeno comércio de eletrodomésticos que fica bastante próximo daqui de casa. Quando vou à sacada para fumar um cigarro, a propósito, consigo vê-lo dentro da loja, inclusive. Em resumo, um sujeito simples, daqueles que se vê milhares todos os dias a pegar seus ônibus lotados de outros iguais.
Ele, porém, jamais soube do filho. Soubesse, e provavelmente não reconheceria como tal. Teresa nunca tinha sido muito fiel, era sabido. Fora um daqueles romance tidos como modernos, algo que haviam combinado desde o princípio. Nada de ciúmes, nada de planos; apenas gozo.
Sei que assim persistiu o relacionamento por vários meses, até que o Cláudio nunca mais teve notícias de seu affair. Eu também não havia a visto mais, e isso já há algumas semanas.
Hoje, porém, aconteceu algo estranho. Voltava do meu trabalho, nos habituais passos largos, a cabeça baixa, os fones nos ouvidos. Dificilmente noto qualquer coisa estranha à minha volta, posto que conheço pouquíssima gente aqui nesta cidade. Chovia fraco, mas o suficiente para ter que usar do guarda-chuva e desviá-lo, nervosamente, de outras pessoas tão ou mais apressadas que eu que utilizam-se dos seus como se espadachins fossem. Ainda assim, vi que alguém me acenava. Era a mãe de Teresa.
Não sei ainda como ele me reconheceu. Aliás, não sei como ela me conhece e sabe da amizade que tive com sua filha. Contudo, o fez, e seu olhar grave me angustiava. Os transeuntes deseducados a esbarrar na jovem senhora nos segundos em que me dirigia até ela eram desprezíveis. Um clichê, “odeio a Humanidade”, pensei. Enfim, cumprimentei-a; perguntei sobre Teresa. Estava grávida, quase ninguém sabia, e fizera um tipo de aborto caseiro, um tal de envenamento salino, mal-sucedido.
Preferiu se arriscar e morrer do que conviver com a realidade. Sentiu-se só, decerto, e a vergonha de ser mãe solteira não desapareceu neste princípio de século XXI, no fundo tão moralista quanto diz não ser. Arthur, ela deixou escrito num bilhete ao lado do computador, caso fosse menino, seria o nome da criança. Isso, claro, se a solidão de Teresa não chegasse a ponto tão definitivo.
Cara, isso é real?
Tenso. xo