Identidades

Fazia calor, como sempre faz em Porto Alegre no verão, mesmo nos finais de tarde. Caminhava em frente à prefeitura, que é, ou ao menos deveria ser, como toda prefeitura, símbolo da democracia e da diversidade de opiniões em uma cidade. Apesar de sentir o suor no rosto e a conseqüente vontade de tomar um bom banho, ia para casa não muito apressado, posto que não estava de fato atrasado a coisa alguma, o que é bastante raro.

As pombas, tradicionalmente instaladas na praça, esvoaçavam, não obstante estarem acostumadas ao incessante vai-e-vem de pessoas naquele lugar. Dentre elas, vinha em minha direção um rapaz, talvez uns dois anos mais velho que eu, branco, loiro, os olhos azuis como os meus… Aparentemente um tanto parecidos, nós, enfim. De soslaio, olhei para a camiseta que trajava, vermelha, o símbolo do Movimento dos Sem-Terra estampado no peito; concomitantemente, fitou meu tórax, sem dúvida reconhecendo, na camiseta do meu curso na universidade, o busto branco de Adam Smith estampado sobre a malha preta. Caminhando em sentido contrário, ambos levantaram os olhos, fitando-se.

Não durou mais que uma fração de segundo. Respeitosamente, cumprimentamo-nos com um sinal de cabeça, mesmo que nem nos conheçamos, como talvez o façam militares que lutam por diferentes objetivos, mas que de todo modo estão imbuídos de ideologias. Não trocamos uma só palavra, o que realmente seria desnecessário; apenas toleramos silenciosamente a opinião um do outro. O ônibus esperava na parada, afinal.