Instabilidade e Progresso

Dentre as não muitas qualidades que tenho, acho que a de que mais me ufano é minha capacidade de mudar de opinião. Não trato aquilo que digo como verdade absoluta e até pelo contrário: diversas vezes me pego pensando se aquilo que falei está certo, sob meu ponto de vista. E isso, na maioria das vezes, é mal-interpretado.

Percebo que, no intuito de facilitar o entendimento, a maioria das pessoas reduz um pensamento com diversas variáveis àquilo que é dito, sem perceber o extenso raciocínio que há por trás. Desse modo, uma mudança de opinião pode ser vista como mudar “da água para o vinho” ou vice-versa quando, em verdade, não passa de uma pequena mudança na construção da ideia — o que, é claro, pode alterar completamente a ideia última, aquela que é falada e divulgada.

Glenn Brady — Goodbye Letters on the Bridge.

Ainda assim, não é que eu mude de opinião do dia para a noite, embora isso às vezes aconteça. As mudanças são geralmente lentas e graduais, como deve ser todo progresso. Isto é, sem grandes revoluções, mas uma evolução bem alicerçada e corajosa. Sim, pois emitir uma opinião gera expectativas — espera-se que o comportamente posterior seja fiel àquilo que é dito. Ao negar o que fora falado, a incompreensão (ou o incômodo gerado pela não-linearidade da opinião e da ação) decepciona e isto, decepcionar quem quer que seja, é algo de que todos fogem.

Conheço muita gente que segue defendendo uma bandeira pelo simples fato de tê-la defendido no passado e ter sua imagem ligada a ela. É como se negassem a própria evolução, raciocínio e aprendizado para que o seu círculo de amigos e conhecidos não os trate como “traidores” ou, tão usual quanto, como “pessoas sem opinião”. No fim, para não admitirem a própria mudança, tornam-se hipócritas ressentidos. Não me parece um caminho lá muito feliz.

Destarte, prefiro, nisso tudo, vagar com a pretensa liberdade que temos para pensar e mudar as formas de ver e perceber sempre que assim entender. A partir do momento em que realmente se tem consciência de que verdades absolutas não existem, aprende-se a relativizar, a colocar o próprio pensamento (e ego) no lugar merecido: um meio, não o objetivo. Relevante, mas não fim último.