Prejuízos do atraso

A pontualidade é a gentileza dos reis
Luís XVIII

Dentre as muitas características próprias que, apesar de odiar, não consigo deixar de ter, a falta de pontualidade é a que, no momento, mais tem me causado constrangimentos. Tenho sentido na pele aquilo que é um lugar-comum: a falta de comprometimento com o horário causa desconfiança e perda de credibilidade. Mais ainda: o atraso atrasa a vida — hoje, para exemplificar, perdi uma importante prova, que me fará atrasar em meio ano a formatura, simplesmente porque tenho algum grave conflito com o relógio (e o despertador).

No entanto, penso que nem todos os retardatários são da mesma estirpe. Há aqueles que atrasam-se para mostrar poder, para mostrar a todos quanto a sua importância para o grupo — chefes de Estado, como Fidel Castro, são ótimos exemplos disso. Penso não me incluir nesse grupo, posto que não faz nenhum sentido, mas sim a um outro numeroso grupo: o formado por aquelas pessoas que querem fazer tudo o que for possível em um mesmo dia, que insistem em brigar contra o sono porque “não fizeram nada de útil o dia todo”, mesmo que o dia tenha sido repleto de fatos e realizações. Assim, querem ler um extenso livro em uma madrugada, aprender uma linguagem de programação em uma noite, ouvir toda a discografia dos Beatles de cabo a rabo de uma só vez, ou, simplesmente, se atrasam a um compromisso porque não queriam desmarcar outro (que, inadvertidamente, era no mesmo horário). O resultado dessa indignação, dessa busca incessante por coisas quaisquer? O futuro breve cobra a conta.

“A pontualidade é a virtude dos entediados”, dizia Evelyn Waugh, romancista inglês que, percebe-se, não tinha muito apreço pelo relógio. Por um lado, concordo com ele e vejo que, de fato, à maioria das pessoas que são cumpridoras de horário falta algo como “existência interior”, vivendo seus dias em certa em monotonia. Porém, em contraponto, percebo que essas mesmas pessoas geralmente são melhor vistas pela sociedade (merecidamente, é justo frisar) e levam uma vida com menos sobressaltos, para dizer o mínimo. Agora, é bom ter uma vida com poucos sobressaltos? Não sei, mas há, é certo, um custo de oportunidade na falta de pontualidade que tem chegado a valores bastante altos e que, possivelmente, não compense por completo as turbulências motivadoras do devir.

Deve ser latente, pelo exposto acima, que a questão não é que eu tenha aversão ao cumprimento de horário, mas, sim, que há algum fator, quer seja psicológico ou cultural, que faz, obstinadamente, com que viva lutando contra os ponteiros do relógio. Com franqueza, posso assegurar que ser um retardatário angustia, faz com que se sinta sempre em dívida com os outros — colegas de trabalho, família, amigos, affaires, especialmente quando a pessoa esforça-se, mas, não obstante, é incapaz de honrar seus compromissos.

Por fim, juro que não sou um vagabundo. Mas é como se fosse.