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Pessoas e Cenouras

Prosseguindo com o tema debatido no último texto, sobre tentar ajudar e possivelmente traspassar limites, e de, agora, buscar ignorar fatos e pouco se importar com as atitudes e futuros do próximo, lembrei de um texto interessante de Chuck Palahniuk chamado Guts.

No conto, o autor, famoso após ter seu Fight Club adaptado para o Cinema, choca ao discorrer sobre masturbação entre adolescentes, vísceras, suicídio e comportamento da sociedade. Como no Clube da Luta, Palahniuk parece querer dar um soco no estômago, ou melhor, encher de porrada, na sociedade. Um pequeno excerto, que serve de ilustração:

[...]
Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.

Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.

Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.

Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.

Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. [...]

Clique no link para ler o texto completo

Os motivos da “cenoura invisível” podem ser os mais variáveis possíveis. Claro, não é necessário que haja conotação sexual, nem mesmo ilícita, para que um assunto seja tratado como vergonhoso ou indigno de publicação. Cada pessoa possui seus valores, suas verdades e mentiras, sua própria balança. Há assuntos que são banais para mim e que não o são para outros; e vice-versa.

Edward Munch — Cinzas.

Contudo, como que preencher uma lacuna na minha própria vida e querer dar a ela algum significado, tenho apreço por ajudar aqueles por quem nutro simpatia a resolver seus problemas, sejam no emprego, de relacionamento ou psicológicos. Porém, percebo que me excedi em alguns casos e, como lição, acho que fica a de não tentar ajudar a resolver os traumas de quem não quer resolvê-los, quaisquer sejam os motivos. Não cabe a ninguém julgar se informações e temas sobre outra pessoa merecem ser dissecados a não ser ela própria (e, se for afirmativo, isso deve ser feito da maneira que lhe convier).

Afinal, todas as famílias possuem aqueles assuntos que jamais serão tratados, aqueles traumas que se prefere esconder a discutir. Do mesmo modo, as pessoas têm seus segredos, grandes ou pequenos, que não devem ser debatidos, sequer lembrados. Mas que, no consciente ou inconsciente, sempre são inexoravelmente onipresentes. Em outras palavras: a ferida continua existindo e geralmente não está cicatrizada.


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Ex-exigência

“Sorte de hoje: Trate os defeitos dos outros com a mesma consideração que lida com os seus”

Um dos conselhos que mais ouvi durante minha vida escolar foi, sem dúvida, este: “tu te cobras excessivamente; diminui a exigência sobre si mesmo, isso não faz bem”. Os anos foram passando e a alta exigência, embora agora com um pouco mais de tolerância, persiste.

Do mesmo modo, por algum defeito (ou qualidade) de caráter, tenho a tendência a ter expectativas similares com relação aos meus amigos e pessoas que me cercam. Não gosto da flexão verbal errada, da vírgula no lugar incorreto, do passe impreciso, da ideia comezinha, e me repreendo muito quando cometo essas falhas. E, embora de maneira mais amena, também advirto quem as comete quando tenho essa liberdade.

Ou melhor, vinha advertindo. Pois, e é óbvio, pouquíssima gente gosta de ser corrigida (eu, particularmente, gosto, desde que haja prova do erro). Com alguns acontecimentos recentes, em que a simples e até altruísta tentativa de ajudar a corrigir os problemas da vida de certas pessoas, que, estranhamente, buscam minha opinião a respeito, é vista como afronta, acho que desistirei. Na ânsia de ajudar, talvez tenha traspassado limites, ou sido excessivamente crítico, quando seria mais fácil ignorar fatos e pouco se importar com as pessoas.

Soa irônica, portanto, a “sorte de hoje” que o Orkut escolheu para mim. Afinal, tratar os defeitos dos outros como trato os meus, seria muito pior visto pelos mesmos. “Não meça as pessoas pela sua régua”, rebatia Alckmin a Lula insistentemente durante as últimas eleições. O juízo caberia a mim também.


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Amanhã

Perdi em algum lugar a criticidade de outrora. Como tudo, a tendência é que esse predicado esteja se resguardando para retonar impactante.

Voltarei ainda mais chato, garanto.


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O assobio

Pequenos acontecimentos cotidianos, muitas vezes, fazem com que eu divague e “filosofe” no meio da rua. Há quem considere estranho, esse hábito meu e eu próprio. Verdade é que um carro que buzina insistentemente, o teatro de palhaços na esquina, o mendigo pedindo cigarro, entre outros tantos exemplo, geram dezenas de pensamentos, interpretações e lembranças.

E, dentre todas essas ações ordinárias, uma que invariavelmente me causa devaneios é ver ou escutar alguém assobiando. Ivan Lessa, jornalista do saudoso O Pasquim, hoje auto-exilado — como ele mesmo diz — na Inglaterra, justifica que, talvez, sua permanência em terras bretãs tenha se dado pela ausência do assobio lá.

Segundo ele, no conto O assobio: “Uma das coisas que talvez tenham me levado a ficar na Grã-Bretanha esses anos todos é a ausência do assobio [...] Nós, brasileiros, assobiamos demais”. E, em sua antiga coluna na BBC Brasil, diz “aqui em Londres, quando alguém assobia, principalmente caprichando, recebe imediata ordem de prisão. Acho. E me parece justo.”

Parece-me que, hoje, até não se assobia tanto quanto antigamente. Os iPods e MP4 tornaram o assovio tão antiquado que poucos ousam encher a paciência dos demais com o som descompassado, mal ritmado e chato que sói ser. Ainda assim, toda vez que ouço um, lembro-me da frase acima, que para mim sintetiza muita coisa no que se refere à (falta de) cultura brasileira.

É verdade, reconheço que exagero e reconheço minha chatice. Mais repugnante, é claro, no meu entender, são aqueles que mascam chicletes de boca aberta e fazem bolas com eles. Porém, imaginem, se recordo isso e já me sinto incomodado com algo tão banal, é melhor que eu sequer lembre do que penso quando vejo um pivete drogado tentando assaltar alguém. Não seria agradável, é certo.

e, se bem entendo Lessa. Lessa, com sua habitual ironia, dá a entender que o assobio exprime a falta de cultura geral. é uma qualidade ligada à falta de cultura. Claro, Lessa usa de uma ironia

http://www.terra.com.br/istoe/artes/1999/10/14/004.htm


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Notas de um jovem (não tão) rabugento

Imediatamente após ler o último post, Notas de Um Jovem Rabugento, o Zanatta tascou: “Nada a ver, Rafinha! Tu é um dos caras mais pops que tem; cumprimenta e faz questão de cumprimentar todo mundo que tu conheces. Fica meia hora cumprimentando gente em uma festa!”. Respondi, de imediato, que talvez eu fosse “popular”, mas com uma popularidade muito superficial.

Pois, de fato conheço muito gente e trato-as, quase sem exceção, muito bem. Um parantêses: sem querer entrar na velhíssima discussão que se faz entre pessoas que se conhece e pessoas que são, de fato, amigas, digo que considero muito pouca gente como sendo minha amiga. Fecha parênteses. Contudo, se faço questão de trocar meia dúzia de palavras com as pessoas, é tão-somente isso, literalmente, trocando frivolidades. Um “oi, tudo bem? O que tem feito? E a faculdade, continua?”. E, geralmente, termina por aí.

Sinto que as pessoas sentem-se bem com esse interesse, mesmo que não seja profundo, e por isso sigo dando o pouco de atenção que é possível. Deixo as conversas mais longas, as verdadeiros curiosidades que me são caras, as digressões filosóficas, os debates político-econômicos, o esquema tática da Holanda de 74, os sentimentos e as resenhas literárias para aqueles que realmente tem algo a ver comigo. Então, não é que eu seja um introvertido contumaz e insociável, mas, fazendo um auto-elogio, um introvertido simpático, que gosta das pessoas e quereria poder mudá-las.

Esqueço, porém, que sou imperfeito e que quem deveria mudar, na verdade, sou eu. Afinal, se o mundo não te compreendes e tu não compreendes o mundo, alguém está errado — e a resposta, como que auto-ajuda, é totalmente desnecessária.


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Notas de um jovem rabugento

Ultimamente, tem sido cada vez mais difícil criar relacionamentos duradouros, quaisquer sejam. Introvertido que sou, penso, delibero, busco achar uma resposta; e ela, talvez, esteja justamente nessa característica, já que a experiência de relações quase todas voláteis sugere que seja assim a tendência das próximas.

É típico de pessoas introvertidas julgar mal aquelas que não o são, isto é, as extrovertidas, como sendo superficiais. Isso porque, caso geral, os extrovertidos tem na ação a seu prazer, falam para só depois pensar, além de serem bastante sociáveis e transmitirem alegria. Algo que nós, introvertidos, muitas vezes louvamos (porque os extrovertidos são carismáticos e parecem sempre ter respostas na ponta da língua), mas, noutras, detestamos (“por que esse ela não para de falar?” ou “por que esse sujeito não pensa antes de falar?”).

Edward Hopper – Automat.

Nesse contexto, pessoas muito falantes aparentam ser frívolas, mesmo que não o sejam. A propósito, conheço pessoas extrovertidas por quem nutro grande respeito por suas ideias e, também por isso, considero-as amigas. Contudo, são poucas, e acho que essas são sui generis — gosto de quem tem esse traço de personalidade, mas dificilmente a ponto de transformar em uma estável relação de amizade ou afeto amoroso, posto que tenho considerável estima pelo mistério e pelas descobertas. Assim, busco pessoas com o mesmo defeito (ou qualidade, dependendo de quem julga) que eu: o apreço pelo silêncio, pela geração de idéias e possibilidades, pela reflexão. Decorre que meus melhores amigos são, via de regra, pessoas assim, reservadas.

É claro, especialmente para quem me conhece: não sou totalmente introvertido e, tampouco, alguém não-sociável. Como diz a teoria, embora existam pessoas extremamente introspectivas ou extrovertidas, geralmente se flutua entre esses dois polos. Eu tenho meus momentos de sociabilidade, que, oportuno, tem melhorado ao longo do tempo, mas sou geralmente do primeiro grupo. Sou ciente, aliás, de que pessoas com minhas características não são melhores, nem piores, do que as demais.

A realidade é que, mesmo sabendo disso, pareço abdicar de tentar abrir espaço à diferença. Ainda que não seja isso racional, senão decorrência de natural apatia, meu desdém a pessoas efusivas tem se potencializado. Ademais, enfim: não sou um misantropo, embora a cada dia esse adjetivo me assuste menos.


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Trem descarrilhado

[outro texto desinteressante]
Leio e ouço, quase que diariamente, que uma vida de sucesso é uma vida em que se faz o que se gosta. Incomodo-me com o tema. Constrange-me, a propósito, quando vejo meus amigos com metas e ambições: tornar-se rico, fazer mestrado no exterior, ser executivo de uma grande empresa, ser famoso, se tornar vereador, prefeito, o que for. Pois, eu não possuo nenhuma grande ambição, especialmente profissional, e, pior, não sei exatamente do que gosto.

Na verdade, um pouco sei. Gosto de Literatura, Música, pesquisar assuntos aleatórios, assistir a filmes, escrever, negociar — mas não o tempo todo. Subvertendo o eterno retorno nietzscheano, diria que nada que faço realmente me dá gosto e repetiria eternamente, com exceção, talvez, das noites de boemia. Porém, ser boêmio não deve ser, por definição, uma meta de vida.

Vincent Van Gogh — Campo de Trigo com Corvos.

“Trabalhe naquilo que gosta”, diz o mantra para mim tão impossível. Minhas predileções não servem para sustentar. Isto é, ler, ouvir música e escrever (mal e cada vez pior) não são profissões. Ao menos, não aos 20 e poucos anos; com 40, vá lá. É claro que, naturalmente, faço tudo isso nos meus momentos de ócio, ainda que de maneira errática. Mas não é uma profissão, não é trabalho, é puro deleite.

Disso decorre meu desprendimento a muita coisa neste momento. Tenho um bom emprego, que estou jogando fora; estudo em uma boa universidade, e não a aproveito; aparecem dezenas de oportunidades, e não sei se as quero. Sinto-me desgovernado e não há objetivo, nem profissional, nem pessoal, no horizonte. A letra de Runaway Train, do Soul Asylum, talvez nunca tenha feito tanto sentido.

How on earth did I get so jaded
Life’s mystery seems so faded

I can go where no one else can go
I know what no one else knows
Here I am just drownin’ in the rain
With a ticket for a runaway train

And Everything seems cut and dry
Day and night, earth and sky
Somehow I just don’t believe it

Quero crer que esse sentimento de inutilidade e desapego ao futuro seja passageiro. Ainda busco forças para tentar ganhar, mesmo que eu não saiba ao certo qual jogo estou jogando. É cada vez mais difícil, porém, lutar por uma causa totalmente desconhecida e duvido que um dia haverá glória ou recompensa. Apenas, quem sabe, compaixão; mas, para o vencedor, as batatas.


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Retorno de uma vontade (e ausência das demais)

Animar-me com algo não deveria ser digno de nota, mas sim decorrência dos altos e baixos naturais do estado de espírito. Entretanto, ando nitidamente desestimulado em praticamente todos os aspectos da minha vida, indo da faculdade ao trabalho, passando pelas festas e futebol, que têm sido raros os momentos alegres. Tenho agido mais por necessidade e concessões sociais do que propriamente por desejo próprio. Não sinto vontade de dormir, tampouco de acordar.

Essa ausência de estímulos se reflete na minha rala barba malfeita (que fiz há pouco, para agradar minha mãe), na minha falta de apetite, e-mails e ligações de amigos que não respondo há meses, um desleixo comigo mesmo, com minhas poucas coisas, com meus sentimentos. Quem lê essas linhas soltas poderia supor que sou dependente químico. Mas não, sou somente um sujeito desanimado.

Claude Monet — O Nascer do Sol.

Pois, o anseio que, no título este texto, eu disse ter retornado tem ligação, penso, com essa falta de entusiasmo para com o cotidiano: senti uma abrupta vontade de histórias, de ficção. Desejo, necessidade, até, de ler bons romances, assistir a um bom filme, reler aquela novela preferida, aquele conto predileto. Afinal, um dos principais, senão o principal, objetivo da Literatura e do Cinema é precisamente preencher uma lacuna de nossas vidas.

Uma vida com significados e causalidade, eis o que nos oferecem essas artes. Diferentemente da vida real, elas têm um mundo inteiro para ser criado, recriado, pensando, fechado. Uma história bem tramada nos mostra um universo em que as coisas têm motivos para acontecer, ao contrário da aleatoriedade de um mundo que, costuma-se dizer, é perverso e injusto. Não é, mas queremos considerar isso uma verdade para que entendamos mesmo aquilo que é ininteligível. Ou, em outras palavras, para que não nos sintamos apreensivos por não entendê-lo. Mas tergiverso.

Fazia uns quatro meses que eu não lia um romance sequer. No último mês, não assistira a filme nenhum. Na última semana, porém, dediquei-me a isto: aos problemas familiares, à guerra, aos traumas, às angústias. Ficcionais. Porque não briguei com meus familiares, não fui à Segunda Guerra, mas morri com Juan Preciado, condoí-me com a guarda nazista personificada por Kate Winslet, sei que Dorian Gray envelheceu temeroso e Tolstoi me lembrou que as famílias infelizes o são cada uma à sua maneira.

Van Gogh — O Vinhedo Vermelho

Sempre tive sérias restrições àqueles leitores e cinéfilos demasiado vorazes, que preferem deixar de viver as próprias vidas para emocionar-se unicamente de maneira artificial nos mundos irreais da Literatura e do Cinema, desejando que a arte substitua a vida. Todavia, hoje pareço os compreender, ao menos em partes.

Afinal, não corro riscos enquanto estou debruçado sobre as páginas dos Irmãos Karamazovi, mas tampouco apaixonarei-me por uma balzaca ou entenderei as Lolitas que andam por aí. Desistindo de lutar pelo que é real, sobra aquilo que é fabuloso. Não é o suficiente para recuperar a dignidade e uma pretensa felicidade, mas aplaca até mesmo o desinteresse. O que, no momento, já me basta.


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Laxante literário

Li, recentemente, um livro (um e-book, na verdade) de um sujeito até bastante conhecido na “blogosfera”, como costumam dizer. O autor em questão escreve em um dos blogs brasileiros de maior sucesso e fiquei realmente inclinado a ler seu romance no momento em que vi um post em que sugeria “técnicas para escrever seu livro”.

Não que eu tenha gostado das técnicas, e antes pelo contrário, mas fiquei realmente curioso por ver como aquelas ideias eram abarcadas em seu texto. Pois, era gratuito e baixei. Porém, antes de ler propriamente o livro, vi a caixa de comentários do blog do (não) referido autor. Dezenas de pessoas derramavam elogios. Alguns, poucos, criticavam e eram sumariamente enxotados.

“Bah, deve ser coisa boa”, pensei, mesmo que alguns confidenciassem terem lido somente até a 6 ou 7ª página. Levantei, fumei um cigarro, peguei um café e voltei para o computador, ansioso. Abri o PDF e a capa saltou aos olhos. Uma capa mais ou menos e um título, que eu já sabia, vá lá, digno de nota 5. “Não faz mal, quantas capas feias já não esconderam um livro bom?”, reanimei-me. Retomei. Li uma página.

Li-a novamente. Não podia crer, simplesmente não cria que aquilo fosse verdade. Continuei, meio embaraçado, como quando se sente vergonha pelos outros; a história é tão piegas, boba, as personagens tão clichês, ideias soltas como que vomitadas no editor de texto, com falhas de trama tão gritantes a ponto de dar inveja a Renato “Didi Mocó” Aragão. E ainda acresente-se: tudo num Português de 8ª série — tenho as mais sérias dúvidas, aliás, de que o “escritor” tenha sequer revisado o texto.

Como um sujeito se dispõe a escrever algo tão ruim e divulgar como se fosse obra de verdadeiro estudo e esforço? Como pode existir tamanha falta de critério para se autoproclamar um talentoso escritor? Dirão que o importante é a mensagem, ou a emoção que transmite aos leitores, mas eu duvido de que os bajuladores tenham lido, de fato, aquele livro. Seria sobre-humano mesmo para Nietzsche.

Esse livro acabou por me lembrar de Pestana, do conto Um Homem Célebre, de Machado de Assis, que busca a glória eterna (isto é, a música erudita) mas só é capaz de efêmero sucesso, a saber, a polca. Por fim, contudo, a experiência foi bastante válida: nunca escreverei até ter certeza de que há uma boa ideia, uma boa trama, por trás da história que contarei, para não passar vergonha.

Também, não leio mais livros de procedência duvidosa.


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Sobre conhecimento (e devaneios)

O comentário do Jones no post Inovação, Cultura e devaneios, em que ele pergunta se “nunca se imaginaram, ou até mesmo pensaram como deve ser bom estar entregue as trevas da ignorância?” me fez lembrar de alguns debates que já tive com amigos e que iam de encontro justamente ao que ele questiona.

O Jones é meu amigo de longa data, e sei muito bem que quando ele se diz culto e politizado é porque, de fato, ele o é — e bastante, diga-se. Mas eu me questiono, diversas vezes, se não superestimo o que sei e, por consequência, superestime a mim mesmo. Talvez o Jones concorde com isso e com o exemplo que segue.

Considero que entendo e me preocupo razoavelmente com política, para citar um assunto, e invejo aqueles que são alheios a tudo. Parecem-me mais felizes, despreocupados, assim. Invejo, repito. Porém, coloco-me no lugar de algum político, um deputado, um senador, ou até um vereador. Será que ele não pensa que EU é que sou feliz, por não saber “da missa a metade”, isto é, apesar ter ideia de como são as coisas, mas não saber com propriedade? Será que eu soubesse como funcionam, na prática, os lobbies, eu não seria ainda mais insone e desacreditado com o mundo?

Novamente, penso que dou excessivo valor àquilo que sei, e que provavelmente nem seja tanto assim. Às vezes, fico pensando naquela frase célebre que se atribui a Sócrates, “só sei que nada sei”, e fico desconfortável. Eu sei, a sério, que nada sei? Meu parecer é negativo: eu deveria ter mais humildade, não só da boca para fora, perante os assuntos que me cercam e ter a consciência de que eu possivelmente esteja errado.

O que serve para este post, inclusive, que não é uma verdade absoluta.


[Um único pronunciamento — deixa o teu]


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