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O futebol

O futebol são vinte e dois sujeitos correndo atrás de uma bola em um campo nem sempre bem cuidado, dizem os muito concisos e os desapaixonados. Para seus amantes, porém, a significação do futebol é próxima do indecifrável, do indescritível. O futebol é a psicologia que Freud não explica.

Pois, o futebol é o samba na vitória, o blues melancólico da derrota, o rock’n roll das disputas no meio-de-campo. É o réquiem no rebaixamento, é redenção e glória ao campeão no apito derradeiro da final. É o juiz sempre injusto nas suas decisões, é o gozo interrompido da marcação do impedimento. É o coadjuvante sendo essencial, é o protagonista decidindo a capa do jornal.

O futebol é o sofrimento da derrota, a dor nas canelas, as meias embebidas em sangue. É a arte do drible desconcertante, o compasso aprumado de uma triangulação bem feita. É o blefe do chute ensaiado e não realizado e o juízo final do chute certeiro. É o riso da falha do goleiro e recuperação sublime deste após a defesa do pênalti mal-marcado. É o zelo do batedor de faltas ao arrumar a bola, é o pensamento ligeiro ao recebê-la, é o pensamento acurado da análise tática.

O futebol é a corrida inebriada em direção aos torcedores após o gol, é a vaia grave ao passe errado. É físico e inteligência necessitando de toda harmonia que seja possível enquanto o adversário acossa e pressiona querendo o Santo Graal. É a malandragem vencendo o pragmatismo ou vice-versa. É a ausência da fórmula perfeita determinando a própria perfeição.

O futebol é uma Revolução Francesa imperfeita. São onze contra onze, pressupondo igualdade. Mas, digamos, a liberdade é restrita pela fraternidade necessária às funções. Zagueiros e goleiros são o anti-clímax do prazer do esporte, os laterais são os bispos que enfraquecem a defesa de peões, enquanto volantes são os serviçais que carregam pianos para o camisa 10, este poeta incompreendido, que articula emoções de imperadores e fenomenais atacantes.

O futebol é a política clubística, com suas articulações melindrosas. É a comunidade de um local deixando de lado suas individualidades em prol de um bem comum. É a união ou a desunião do vestiário levando à vitória ou à derrota. É o grito da torcida, ensandecida, querendo garra, querendo que o jogador se transforme em um gladiador romano ou em um Charles Chaplin de chuteiras. É a ira ao adversário e a compaixão pelo mais fraco. É a melancolia do estádio vazio sendo preenchida por milhares de esperanças.

O futebol é a diversão sem cor ou classe social. O futebol é a batalha para a qual o pai deixa ir seu filho mais pródigo. É a chance de o iletrado ser adjetivado como gênio e do gênio das ciências ser tachado como ignóbil. É o trabalho árduo do dia-a-dia e o picadeiro da apresentação memorável. É o entrevero da disputa, o passo lento ao vestiário, o alvoroço dos repórteres. É o escárnio, a solidão e o esquecimento na derrota.

E o que o futebol não é, então?

De maneira fugaz e definitiva: o futebol não é um mero jogo. Porque o futebol é o cântico das torcidas, a arquitetura pós-moderna do estádio e minimalista do campinho de terra; é a escultura do jogador, o movimento cinematográfico, a pintura do gol, o fingimento e o ludíbrio de lesões, as cores da camiseta definindo o caráter, a palavra do cronista e a coreografia do esquema tático.

O futebol, no fim, é arte que condensa em si todas as demais.


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Marginalizados pela hipocrisia

Uma dos maiores auto-elogios que as pessoas comumente fazem é dizerem-se livres de preconceito. Como que para provar ao mundo que possuem um intelecto superior, moderno, pregam algumas liberdades e o fim do racismo como um fator de requinte do próprio pensamento e postura. Só incomoda-me, contudo, que os preconceitos de que dizem estar livres são, notadamente, aqueles que aparecem na televisão e que são considerados repimíveis por uma sociedade hipócrita.

Reclamam do preconceito que americanos e europeus têm de nós, brasileiros. Dissemos, nós, que é uma injustiça. É, sim — assim como são injustos nossos preconceitos mal-tratados dentro de nosso próprio país. É um pesar que eu conheça várias pessoas racistas. É uma pena que eu conheça diversas pessoas que consideram o racismo um absurdo, mas são plenamente homofóbicos. Um exemplo? Torcidas de futebol, que movem mundos para não serem tachadas como racistas, mas entoam cânticos xingando os torcedores rivais de “putos” e “bichas”.

Isso não me ofende diretamente, já que sou heterossexual. Agora, ofende minha inteligência ver tamanha contradição e, até, fascismo na sociedade. Tenho alguns amigos, até bastante cultos e bem-informados, que vociferam contra negros, contra prostitutas (cuja profissão se trata muito mais de uma última possibilidade de sobrevivência do que de uma escolha), contra homossexuais e argentinos, contra tudo aquilo que não siga um dito padrão de classe média, que se quer de sangue azul. Fico enjoado. Enojado.

É claro, eu também tenho meus preconceitos. Aliás, não acredito em quem diz que não possui preconceitos — um atestado de hipocrisia, para mim. É um erro, é certo, mas despir-se de todos os conceitos antecipados não é tarefa fácil. Porém, só é possível mudar dogmas particulares tendo conhecimento de sua existência como tal e, claro, ter a noção de que é um comportamento plenamente estúpido. Revisito os meus periodicamente, e meus conceitos invariavelmente mudam.

Problemático é que a sociedade em geral só reconhece seus preconceitos quando estes aparecem na novela das 21h. Aí, rapidamente mudam suas atitudes, para “não pegar mal” e manterem-se baluartes da ética e dos bons costumes. Disseminadores de ofensivas declarações totalitárias tornam-se, da noite para o dia, defensores contumazes da liberdade do dia. Triste é ter que conviver com tanta falsidade.


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