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Trágica enciclopédia

Os indivíduos procuram utilizar seu tempo disponível de modo a maximizar seu bem-estar, disse ainda ontem um colega, com ar grave e acadêmico. Deixando o jargão de lado, ocorre que as pessoas agem conforme seus próprios interesses e motivações, às vezes com compulsão e exagero. Um senso comum, acredito.

Na web, essa revolução dos nossos tempos, não parece ser diferente: conheço gente com fixação compulsiva por jogos online, alguns mais cultos (nerds, quero dizer) que buscam artigos científicos e dados estatísticos, aqueles que são fanáticos por sites esportivos, outros ainda (geralmente os mesmos, na verdade) maníacos por redes sociais, MSNs e coisas do gênero. A Internet vicia, diz um já estabelecido chavão.

Nisso, meu vício é específico e atende por nome (além do Dunhill e da Bohemia, casos mais sérios): Wikipédia. Na adolescência, passava horas buscando informações tão úteis para a vida cotidiana como a capital da Lituânia, o PIB per capita belga e a cidade mais populosa da Índia, algo que nunca ninguém me perguntou, nem perguntará, o que não faz mal. Isso, à época, era feito no Almanaque Abril, que, mui valoroso, não fazia com que me pervertesse como fazem os links da enciclopédia online.

Links da Wikipédia, eis minha perdição (sobretudo de tempo). Fiquei em dúvida, dias atrás, sobre qual a base da economia norueguesa, para além do petróleo. Estava preparado o cenário para a curiosidade vã: e qual seria a da Suécia? E qual a população da Suécia? E a Dinamarca, por que é considerada na escandinávia, se ela está no continente, não na península? E por aí vai, adiante e tendendo ao infinito. Ou, melhor dito, até que o navegador quase não mais dê conta do recado.

Para cada verbete consultado, são mais três páginas abertas, para subestimar. Abas, abas, muitas abas. Se ganhasse um real por cada aba aberta no Google Chrome, eu estaria agora em alguma ilha paradisíaca, seja na Papua Nova Guiné, de onde não sei nada, mas acho o nome engraçado, ou nas Seychelles, que é um arquipélago africano, logo acima de Madagascar, uma das poucas nações daquele continente com Índice de Desenvolvimento Humano considerado alto (acabei de consultar). São bem bonitas, as ilhas seichelenses.

Ainda sobre o assunto internético, noto que quase tudo que pesquiso e leio é esquecido minutos, talvez segundos, após a leitura. Ou seja, é um passatempo, tal qual os games, o MSN, as redes sociais. Eis, assim, um bom motivo para, habitualmente, largar o computador e ir aos livros e às fotocópias. Porque, tenho esta impressão, a escrita no papel, ao não distrair o sujeito apressado (eu, por exemplo) com hiperligações, faz com que a concentração, a atenção sincera, aumente e a transformação de informações em conhecimento se dê de maneira mais produtiva. A apreensão do que se lê offline é certamente maior, disso tenho certeza. Mais especificamente, enciclopédias, em especial na Internet, servem para tirar dúvidas pontuais, não para se construir teses. É uma opinião.

E é isso o que acontece, desimportante, comigo quando online. Houve acontecimentos mais importantes mundo afora nesse tempo de blog às moscas. Repassemos, então.

Primeiro, os países ditos árabes entraram em estranha convulsão (rumo à democracia, dizem). A França, cujo presidente dá mostras de estar inclusive disposto a gerar herdeiro para não perder eleição, participa das guerras na Líbia (onde o “líder” Gaddafi não larga o osso), no Afeganistão e segue na Costa do Marfim, além das missões de paz na Burkina Faso, no Mali e na Somália (digo de cabeça, sem consultar a Wiki desta vez), que são países que ficam ali em qualquer lugar da África.

(Confesso sentir certa saudade de jogar War agora. Mas prossigo, já que dominar o mundo sozinho é chato, sendo necessário bons adversários para que emoções haja, ensina Napoleão.)

Mataram o Osama Bin Laden e jogaram-no ao mar, garante-me o presidente Obama, um americano com certidão, e já se excitam as redações para saber quem será seu sucessor na Al-Qaeda — ou Alcaida, para ficar conforme a possível nova lei gaúcha. Como acontece isso, será, de escolher um terrorista sucessor? Estimo que não seja por meio de dinâmicas de grupo, mas vá lá saber? Imaginei procedimento similar ao conclave católico, a fumacinha branca ou preta saindo pela chaminé quando finalizassem a derradeira votação, anunciando “Habemus terroristam!” (transliterado do árabe), algo assim. Seria um belo ritual, especialmente se televisionado, penso eu. Que seja.

O que mais? A inflação ameaça o país, o Big Brother Brasil teve mais uma edição e o Grêmio foi eliminado da Libertadores. Aconteceu também aquela massacre macabro e absurdo em Realengo, tsunami no Japão e a Páscoa. Assuntos trágicos, que não quero entrar em pormenores — os colaboradores da Wikipédia que o façam, pois. Preciso me ocupar dos livros, filmes, pessoas e coisas boas, essas outras divagações que ficam para os próximos textos.


[Um único pronunciamento — deixa o teu]

O Descontentamento Consigo Próprio

“O caso é o mesmo em todos os vícios: quer seja o daqueles que são atormentados pela indolência e pelo tédio, sujeitos a contantes mudanças de humor, quer o daqueles a quem agrada sempre mais aquilo que deixaram para trás, ou dos que desistem e caem na indolência. Acrescenta ainda aqueles que em nada diferem de alguém com um sono difícil, que se vira e revira à procura da posição certa, até que adormece de tão cansado que fica: mudando constantemente de forma de vida, permanecem naquela ‘novidade’ até descobrirem não o ódio à mudança, mas a preguiça da velhice em relação à novidade. Acrescenta ainda os que nunca mudam, não por constância, mas por inércia, e vivem não como desejam, mas como sempre viveram. As características dos vícios são, pois, inumeráveis, mas o seu efeito apenas um: o descontentamento consigo próprio.

Este descontentamento tem a sua origem num desequilíbrio da alma e nas aspirações tímidas ou menos felizes, quando não ousamos tanto quanto desejávamos ou não conseguimos aquilo que pretendíamos, e ficamos apenas à espera. É a inevitável condição dos indecisos, estarem sempre instáveis, sempre inquietos. Tentam por todas as vias atingir aquilo que desejam, entregam-se e sujeitam-se a práticas desonestas e árduas, e, quando o seu trabalho não é recompensado, tortura-os uma vergonha fútil, arrependendo-se não de ter desejado coisas más, mas sim de as terem desejado em vão. Eles ficam então com os remorsos de terem assumido essa conduta e com medo de voltarem a incorrer nela, a sua alma é assaltada por uma agitação para a qual não encontram saída, porque não conseguem controlar nem obedecer aos seus desejos, na hesitação de uma vida que pouco se desenvolve, a alma paralisada entre os desejos abandonados.
Tudo isto se torna ainda mais grave quando, com a repulsa do sofrimento passado, se refugiam no ócio ou nos estudos solitários, que uma alma educada para os assuntos públicos não consegue suportar, desejosa de agir, inquieta por natureza e incapaz de encontrar estímulos por si mesma. Por isso, sem a distrações que as próprias ocupações representam para os que nelas andam, não suportam a casa, a solidão, as paredes; com angústia, vêem-se entregues a eles mesmos.”

Sêneca, em “Da Tranquilidade da Alma” (trecho aqui)


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